sexta-feira, 6 de maio de 2011

O gênio e o ciúme



Wolfgang Amadeus Mozart, segundo Norbert Elias, “simplesmente desistiu”. Mozart “morreu pela falta de significado de sua vida, por ter perdido completamente a crença de que seus desejos mais profundos seriam satisfeitos” (1995:9). E continua Elias,

"Duas fontes de sua determinação de viver, dois mananciais que alimentavam seu sentimento de auto-estima e importância, estavam quase secos: o amor de uma mulher em quem pudesse confiar, e o amor do público vienense por sua música. Por algum tempo ele gozara de ambos; e ambos ocupavam o lugar mais alto na hierarquia de seus desejos. Há muitas razões para se crer que, em seus últimos anos de vida, ele sentia cada vez mais que perdera os dois. Esta era a sua tragédia – e a nossa – enquanto seres humanos" (ELIAS, 1995:9).

Amadeus, de Milos Formam, conta a história desse homem único, dotado com essas inexplicáveis capacidades que fazem dos gênios, gênios. No Brasil, esse filme não é recomendado para menores de 14 anos. Curioso, não?! Pode ver a carnificina dos programas sensacionalistas, ditos “policiais”, que passam ao meio-dia, na hora do almoço (para os que almoçam!), mas não pode ver a história de um dos maiores compositores do planeta...

O filme começa pelo final, um formato de roteiro um tanto conhecido e consagrado. Antonio Salieri (F. Murray Abraham), grande maestro e compositor do Séc. XVIII, tenta suicídio em vão. Logo é levado para um daqueles lugares horríveis que um dia se transformariam em nossos modernos hospitais, manicômios etc, como demonstrou Foucault em seus escritos. No dia seguinte, chega um padre para ouvir a confissão de um pecador. Daí em diante, somos levados pelas memórias de Salieri ao fascinante mundo da música de corte daquele século. É nesse cenário que tomamos conhecimento da vida de um gênio, um menino prodígio que encanta a todos por onde passa. Um menino que nos deixou uma obra fenomenal e atemporal, por isso mesmo clássica.

Logo virão os conflitos de geração, as incompreensões da obra de Mozart. Como diz Salieri, referindo-se à obra daquele homem considerado um rude, num dos momentos agonísticos de sua estranha admiração por Mozart, “a beleza mais absoluta”...

Estranho sentimento esse, um misto de inveja, ciúme e contemplação divina. A obra de Mozart, muito florida e alegre, brincando com os campos harmônicos, com as modulações, revelou a mediocridade dos compositores renomados da época. Mozart jamais teria sucesso nessa empreitada.

Segundo Elias, a época não era propícia para o surgimento de artistas autônomos, como era o perfil de Mozart. A arte, e seus trabalhadores, era mais uma serva da corte, vivia das migalhas que caíam dos grandes banquetes. Mozart sabia disso e tentou romper uma tradição que se mostrou muito maior do que ele e de toda a sua genialidade. Como diria Durkheim, se quisermos saber se o social existe, como uma força exterior aos desejos dos indivíduos, basta nos colocarmos contra ele.

O exemplo de Mozart é o exemplo da força autoritária de uma tradição cega, dogmática, que insiste em demonizar tudo aquilo que está fora do costumeiro, como se a vida pudesse ser programada e ensaiada antes de ser vivida. Ora, sabemos disso, no teatro da vida não há tempo para ensaios.

Durante todo o filme somos bombardeados por uma beleza plena, oriunda dos acordes de Mozart, intercalada pela narrativa de Salieri, que extrapola os limites da lucidez, num monólogo fenomenal, desafiando Deus diante de seu representante na terra, o padre.

Considero o momento final, quando Salieri tenta acompanhar o ritmo de Mozart compondo um Réquiem para sua própria morte, um dos pontos mais emocionantes do filme. Somos colocados ante o momentum da criação de Mozart. É a hora em que a genialidade e o ciúme se harmonizam na finalização do poema sinistro. Um filme para assistir por toda a vida...

...Num dia chuvoso, a 6 de dezembro de 1791, Mozart foi enterrado numa vala comum, prática destinada às pessoas sem honra e glória, que nada de digno haviam deixado para o mundo... as águas da chuva vienense, ao som do terrível Réquiem, transformam-se em lágrimas nos olhos de quem não aceita a mediocridade.

Créditos:
AMADEUS, EUA, 1985.
Direção: Milos Forman
Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Christine Ebersole, Jeffrey Jones, Charles Kay
Fotografia: Miroslav Ondricek
Música e Supervisão de Neville Marriner
Roteiro: Peter Shaffer
Colorido
160 minutos

Prêmios:
Grande Vencedor do Oscar de 1984 com 8 Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator (F. Murray Abraham), Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado

Referência Bibliográfica:
ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O outro lado do Muro



Psicodélico, reflexivo e simbologicamente complexo, o longa metragem The Wall, dirigido por Alan Parker, com o roteiro e uma pitada autobiográfica do baixista Roger Waters é considerado um musical pelo fato do enredo do filme ser interpretado pelas músicas contidas no conceituado álbum The Wall (1979) da banda inglesa Pink Floyd; embora seu conceito não seja tão facilmente assimilado nas primeiras audições.

Inicialmente, a grande inspiração para o baixista compor a maioria das músicas do álbum foi um incidente que ocorreu durante um show em 1977 da turnê do Animals. Ele cuspiu na cara de um jovem que invadiu o palco. Esse foi o grande ápice que o tornou introspectivo, e construtor do abstrato muro metafórico,  que estabelecia uma barreira entre o artista e seu público alienado.

Em 1982, a criação acaba por se tornar o roteiro do homônimo The Wall, juntamente com as fantásticas animações que ficaram por conta do desenhador britânico Gerald Scarfe, que as assimilou com a trajetória não tão linear vivida pelo personagem Pink, dono de uma vida repleta de memórias.

Quem vê o filme pela primeira vez, às vezes não atenta para as ricas metáforas escondidas numa verdadeira produção psicodélica. Porém, The Wall faz refletir literalmente sobre nossos próprios muros, impregnados da repressão, da alienação e do isolamento que a própria sociedade nos constrói. Tais interpretações são confirmadas ao analisarmos a vida de Pink, um rock star frustrado, oprimido desde sua infância. Por conta da guerra, perde seu pai (referência à morte do pai do baixista Roger Waters), e consequentemente é superprotegido pela mãe, o que causará efeitos pelo resto de sua vida, tornando suas perspectivas negativas e posteriormente traumáticas.

Criticando o modelo autoritário e manipulador da educação tradicional inglesa, Pink é repreendido no momento em que está escrevendo poemas pelo professor que os lê em voz alta (trechos da música Money), oprimindo-o mais ainda. A cena seguinte, dos alunos igualmente marchando em direção à máquina moedora de carne, todos com o mesmo rosto, critica a alienação forçada, a falta de identidade, a repressão a que os estudantes se submetiam para com seus rígidos professores, assim como diz na música: “são apenas tijolos no muro”. E Pink, ao crescer, continuou sendo este ser indiferente, reprimido e depressivo. Traído pela sua esposa devido às pressões por ser um rock star, Pink se afunda em sua própria melancolia e tenta o suicídio. Essa melancolia mais tarde resulta na sua loucura: ele raspa todos os pêlos do corpo (referência a Syd Barrett, ex-membro da banda Pink Floyd) sob efeito de drogas, alucina ser um ditador neonazista, extremamente lunático que desrespeita qualquer diferença e em seguida é aclamado pelos seus aliados. Tal encenação é feita sob o fundo musical de In the flesh e Run like hell, talvez com o embasamento de liberdade, de sair do isolamento e expressar os sentimentos até então reprimidos. Novamente podemos ver as máscaras de botão no rosto das pessoas ("É melhor você colocar aquele seu disfarce favorito, com os olhos cegos de botão..."), representando a alienação.

De forma geral, o filme é extremamente artístico tanto pela sua musicalidade quanto pela sua produção, o que nos leva a refletir que os conceitos de alienação e isolamento da sociedade estão presentes o tempo todo e são unânimes. Waters construiu seu personagem a partir de fatores que ocorreram na vida de Pink: perda do pai na guerra, mãe superprotetora, regime escolar rígido, traição da esposa, rock star frustrado e a loucura. Estes ingredientes influenciaram na construção do muro, isolando-o. The Wall, por mais que tenha sido criticado e elogiado ao mesmo tempo pelo próprio roteirista, não deixa de ser um filme aclamado pelos fãs de cinema e da banda também.

Título original:Pink Floyd - The Wall
Gênero:Musical
Duração:1 hr 35 min
Ano de lançamento: 1982
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer / Tin Blue / Goldcrest Films International
Distribuidora: MGM
Direção: Alan Parker
Roteiro: Roger Waters
Produção: Alan Marshall
Música: Robert Erzin e Pink Floyd
Fotografia: Peter Biziou
Figurino: Penny Rose
Edição: Gerry Hambling
Prêmios obtidos:
Melhor canção e melhor som da Academia Britanica de Cinema em 1983


domingo, 10 de abril de 2011

Dançando no Escuro



Dançando no escuro é um filme dirigido por Lars Von Trier que narra a história de Selma Jezkova, uma imigrante do leste europeu que se muda para os Estados Unidos em busca de trabalho para poder pagar a cirurgia de seu filho que possui uma doença hereditária que o deixará cego.

Selma mora em um trailer alugado por um simpático casal que ainda cuida de seu filho enquanto ela está trabalhando. Ela tenta suavizar sua dura realidade fazendo dela um musical. Sempre que passa por alguma situação difícil, ela entra em uma espécie de realidade alternativa em que tudo é um lindo musical com suas canções e danças.

Vencedor de vários prêmios, o musical possui características peculiares no que diz respeito à sua estética, pois segue os conceitos do Dogma 95, um movimento cinematográfico que começou a partir da publicação de um manifesto em março de 1995 da autoria de Lars Von Trier e Thomas Vinterberg. O movimento prega a criação de filmes de maneira mais realista e menos comercial e é uma tentativa de romper com a indústria que o cinema se tornou. O manifesto propõe uma série de restrições técnicas (em relação ao uso de tecnologias nos filmes) e éticas (no que diz respeito aos assuntos abordados no filme).

Na película, podemos identificar claramente características do Dogma 95: a presença da luz natural em todas as cenas, a “câmera na mão” (idéia pregada pelo manifesto de que as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar) e um tema forte: a autonomia da mulher. O filme se passa na década de 60 e percebemos o feminismo sendo abordado, a luta da mulher pela autonomia, a tentativa de sobreviver em um universo machista. Esse assunto o diretor retoma em outros trabalhos como “Dogville” e “Manderlay”.

Entre os vários temas abordados no filme, o da crítica aos Estados Unidos é o mais forte. Percebemos closes sarcásticos na bandeira americana e também notamos uma crítica ao sistema de exploração a que os trabalhadores são submetidos. Por fim, o diretor mostra como um representante da lei (policial) comete um erro e é responsável por uma tragédia.

Com uma trilha sonora impecável e a atuação brilhante da cantora Björk, Dançando no escuro é um filme maravilhoso que sem dúvida merece os prêmios que recebeu. É impossível assistir o filme e não se sensibilizar e se chocar com sua beleza.

Ficha técnica

Diretor: Lars Von Trier

Elenco: Bjork, Catherine Deneuve, David Morse, Peter Stormare, Joel Grey, Vincent Paterson, Cara Seymour.

Produção: Vibeke Windelov

Roteiro: Lars Von Trier

Fotografia: Robby Müller e Lars Von Trier

Trilha Sonora: Mark Bell e Björk

Duração: 139 min.

Ano: 2000

País: Dinamarca / Suécia / França / Rússia

Gênero: Drama

sábado, 2 de abril de 2011

Made in Bollywood



O primeiro filme da temática "musicais" é um filme musical que escapa à cultura de filmes ocidentais. No entanto, a esmagadora maioria dos filmes produzidos em Bollywood é do gênero musical. A indústria cinematográfica made in India tem sua sede em Mumbai (antiga Bombaim), a maior cidade do país. Da característica de Mumbai ser a capital do entretenimento, surgiu o cruzamento vocabular: Hollywood + Bombay = Bollywood.

Um filme musical tem a música coreografada como parte integrante, ou seja, o enredo segue nas danças. As músicas não são simplesmente a trilha sonora, mas a continuação da estória. Uma ópera, por exemplo, é integralmente musical, mas não coreografada (porque é teatro, não dança). Nos filmes de Bollywood, tem-se a impressão de ver um filme com cinco ou seis clipes musicais no meio. No entanto, a parte musical costuma ser uma parte orgânica do filme. Muitas vezes o cenário muda (e se vê os Alpes (!) ao fundo, por exemplo), as roupas dos protagonistas frequentemente são trocadas mais de uma vez, não é incomum que chova na moça, o casal sempre é o centro da coreografia e os rostos dos dançarinos coadjuvantes não se destacam.

Assim como as novelas da Globo contam com um elenco relativamente fixo, Bollywood cultiva seus astros. Shah Rukh Khan é o Brad Pitt indiano. As estrelas atuam e dançam. A voz é de cantores famosos na Índia e na verdade a música é o chamariz para o filme. Os clipes (ou as músicas) são lançados antes do filme e servem de convite ao público para ir ver o filme. Tipo o que estou fazendo nesta resenha. 

Os temas dos filmes de Bollywood orbitam em torno do casamento, família, honra e identidade indiana. Não é à toa que os filmes são em hindi. Na Índia não há monolíngues, e se fala inglês como língua oficial (especialmente no sul). Hindi (falado) é compreendido pelos paquistaneses (que ficam ao norte da Índia e dizem que falam urdu). Paquistão um dia foi Índia. Os paquistaneses escrevem hindi (= urdu) com o alfabeto árabe (porque são muçulmanos, não hindus). A identidade indiana não é afirmada apenas através da língua. Em Chak de India, por exemplo, o treinador (Shah Rukh Khan) do time de cricket (esporte nacional) repete sempre que as jogadoras devem esquecer suas diferenças "tribais" e formar um time indiano. Em Fanaa, por exemplo, o herói é um terrorista lutando pela independência de Kashmir. Morreu. E foi a esposa amada que o matou. Em Swades, o herói (Shah Rukh Khan de novo) é um astrofísico trabalhando pra NASA que volta ao seu vilarejo natal.

Paheli afirma sua identidade indiana em todos os sentidos: é baseado num conto indiano, escrito por um autor muito celebrado na Índia (talvez equivalente ao nosso Machado de Assis). A estória de amor entre Radha e Krishna, que não são casados, nem da mesma espécie (Krishna é uma divindade, Radha é uma camponesa) se faz presente em Paheli: Lachchi (Rani Mukerji) casa-se (é um casamento arranjado) com Kishen (Shah Rukh Khan) que, na manhã após o casamento, parte em viagem por cinco anos. 

O casamento não se consuma, porque o marido precisa aproveitar um momento oportuno para fazer negócios e termina de fazer seus cálculos na noite de núpcias. O marido parte, a mulher não-desposada fica. Um fantasma apaixonado pela bela Lachchi assume as feições de Kishen e se apresenta a ela. O fantasma oferece seu amor pelo tempo em que o marido estiver fora. O título do filme - Paheli - vem do momento em que é dada a Lachchi a decisão de esperar cinco anos pelo marido ou participar da farsa de que o marido tenha voltado - sabendo que na verdade se trata de um fantasma com as feições do marido.

O fantasma dá outra vida ao corpo de Kishen: é engraçado, auto-confiante, mágico e apaixonado por ela. A decisão de se casar por amor não é difícil. Complicado é lidar com a gravidez depois de quatro anos, um ano antes da volta do marido oficial.


Directed by Amol Palekar
Produced by Gauri Khan
Shahrukh Khan
Screenplay by Sandhya Gokhale
Story by Vijayadan Detha
Sandhya Gokhale
Amol Palekar
Narrated by Naseeruddin Shah
Starring Shahrukh Khan
Anupam Kher
Rani Mukherjee
Amitabh Bachchan
Sunil Shetty
Juhi Chawla
Rajpal Yadav
Music by M.M. Kreem
Cinematography Ravi K. Chandran
Editing by Amitabh Shukla
Distributed by Red Chillies Entertainment
Release date(s) June 24, 2005
Running time 141 mins
Country India
Language Hindi

quinta-feira, 31 de março de 2011

Amarelo feito manga



Quantas coisas podem acontecer em um dia? Eis uma questão que salta do premiado Amarelo Manga de Cláudio Assis. Um filme que escancara uma cidade Recife bem conhecida pelos seus habitantes, mas que pode surpreender os desavisados. Logo de início, somos tomados pela reflexão de Lígia (Leona Cavalli), a loira do Avenida, “só se ama errado”, e completa: “eu quero é que todo mundo vá tomar no cú!”.

Mas por quê manga? Há quem diga que a tal fruta do conhecimento, que alguns hipocondríacos insistem em dizer “do pecado”, era ou deveria ser uma manga. Dadas as características comportadas (ou reprimidas) da maçã, a manga é quem melhor representaria essa descoberta do saber, que dá prazer e que liberta dos dogmas... e que pode ser perigoso também. É bom ficar atento às principais notícias do rádio...

Tudo acontece num dia. Amanhece o dia e com ele toda uma cidade desperta. A morte é presença garantida em quase todas as cenas. Parece nos lembrar que a cada instante novas células surgem para ocupar o lugar daquelas que findaram suas tarefas.

Numa cena inicial, em que apresenta um dos principais personagens, ouvimos: “entre todas as espécies que existem no mundo, o homem é o que mais merece morrer!” Diz Wellington Kanibal (Chico Diaz), açougueiro, marido de Kika (Dira Paes), enquanto destroça um boi num matadouro.

Matheus Nachtergaele arrasa interpretando Dunga, responsável pela faxina, pela comida e por outras coisas mais que acontecem no “estiloso” Texas Hotel de Seu Bianor.

Isaac (Jonas Bloch) tem uma tara toda especial por defuntos... Rabecão (Everaldo Pontes) é quem alimenta os sonhos de Seu Isaac. Afinal, o mundo se extingue para quem morre.

Dona Aurora, ex-dona de uma daquelas casas que leva alegria ao macharal, lamenta os tempos idos enquanto aguarda a visita da morte.

No Bar Avenida, poetas, caneiros, filósofos, papa-defuntos, traficantes e tudo quanto é gente da melhor estirpe discute os temas mais diversos. De vez em quando uma pérola como essa: “todo mundo que tem senso no Brasil, tem culpa!”, diz um frequentador assíduo do Avenida.

No meio de uma favela, que une o Texas Hotel a uma igreja abandonada, um padre nada comum solta o verbo: “o ser humano é estômago e sexo!”, e continua sartreanamente lamentando a nossa condenação à liberdade.

Às vezes temos a impressão de ser um documentário, por causa do imenso número de “figurantes”, que são na verdade os habitantes de Recife capturados por Amarelo Manga. O filme é bem realista. Com uma fotografia de alto nível e com uma trilha sonora impecável, made in Pernambuco. O final alude ao eterno retorno nietzscheano, uma boa dica para pensarmos nossas próprias vidas.

Prêmios:
Melhor Filme. Berlim 2003 – Forum, Federação Internacional dos Cinemas de Arte.
Melhor Filme. Melhor filme da crítica. Melhor filme do público. Melhor fotografia. Melhor montagem. Melhor ator. Festival de Brasília.
Melhor filme. Festival de Toulouse.
Grande Vencedor de todos os prêmios do festival. Cine Ceará 2003.

Créditos:
Direção: Cláudio Assis
Elenco: Leona Cavalli, Conceição Camarotti, Cosme Soares, Chico Diaz, Dira Paes, Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch, Everaldo Pontes, Magdale Alves, Jones Melo.
Duração: 101 minutos.
Califórnia Filmes, Brasil.
Participam da Trilha: Lúcio Maia, Jorge Du Peixe, Fred 04 (que também aparece em cena), Pupilo, Júnior Areia, Toca Ogan, João Carlos e Otto.

sexta-feira, 18 de março de 2011

AVISO:

Devido à instabilidade de fechar ou não a BR e o clima de "terror" no campus por conta da revolta dos trabalhadores do Jirau, o cine clube deLÍRIO decidiu adiar a sessão que teríamos hoje (18/03) do filme Desmundo,  para a próxima sexta (25/03).

segunda-feira, 14 de março de 2011

(des)Mundo

Inspirado no romance de Ana Miranda, dirigido por Alain Fresnot, Desmundo é um filme ambientado por volta de 1570, época em que a monarquia portuguesa e a Igreja católica preocupavam-se com a formação étnica da colônia. Assim, enviava órfãs ao Brasil para desposarem com os colonos, na tentativa de evitar que eles se miscigenassem com as índias

Oribela, uma jovem dentre as demais órfãs criadas e educadas por freiras, sente-se desamparada após chegar ao Brasil sob intermédios da igreja católica e de Portugal. Tida como “resto”, é obrigada a casar-se com Francisco e a viver conforme suas ordens. Francisco a leva para seus aposentos, transformando uma noite de “núpcias” em um terror, impondo-lhe a consumação do casório. Oribela consegue contê-lo com algumas artimanhas, mas não por muito tempo. Ele a estupra, o que faz com que ela fuja à procura de alguma embarcação que a leve de volta a Portugal. Porém, é surpreendida por três homens que tentam estuprá-la. Isso não chega a acontecer, pois Francisco chega a tempo, matando os três tripulantes do navio. Ele a leva para casa acorrentando-a em um pequeno cômodo, onde só tinha a companhia de uma índia que cuida dos ferimentos produzidos pelas correntes que prendem seus pés. Mesmo sob ameaça de morte do próprio marido, Oribela está decidida a fugir mais uma vez, o que ocasiona mais uma morte no enredo.

Observando o contexto social do filme, os homens ditos ricos eram apenas donos de engenho que exerciam certa influência por conseguirem manter sobre seu domínio índios e escravos em suas lavouras, da maneira mais cruel e desumana possível. É notável também a grande influência que a Igreja exercia na sociedade, com o intuito de domesticar os índios através da fé; assim como interferir no comportamento feminino, pregando que a Igreja e o homem teriam completo poder sobre a mulher. E tais poderes de ambos eram utilizados de forma exarcebada, muitas vezes de forma proveitosa, seja no tratamento explorador dos índios e negros ou no tratamento escravocrata e violento dado às mulheres.

Outro aspecto interessante é a utilização do português arcaico, que contribuiu para a ambientação do enredo e ajuda a imaginar todo o processo de linguagem da época, pois o filme faz parte da realidade do Brasil Colônia. 


Ficha técnica:
Título original: Desmundo
Gênero: Drama
Duração: 100 min
Ano de lançamento: 2003
Direção: Alain Fresnot
Roteiro: Sabina Anzuategui e Alain Fresnot, baseado em livro de Ana Miranda
Produção: Van Fresnot
Música: John Neschling
Fotografia: Pedro Farkas
Direção de arte: Adrian Cooper e Chico Andrade
Figurino: Marjorie Gueller
Edição: Júnior Carone, Mayalu Oliveira e Alain Fresnot

terça-feira, 8 de março de 2011

Justiça




Justiça é um documentário de Maria Augusta Ramos gravado no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O filme utiliza o recurso cinematográfico da câmera parada, posicionada em lugares estratégicos em que podemos observar o cotidiano de juízes, defensores públicos, réus e de seus familiares.

O documentário expõe de maneira clara os problemas que o sistema judiciário possui, apresentando a frieza dos juízes, a falta de ética dos defensores públicos, os maus tratos dos policiais em relação aos acusados, a ignorância dos réus e de seus familiares e o verdadeiro inferno do sistema carcerário brasileiro.

A película acompanha o andamento de vários processos, mostrando a ineficiência da justiça. Em um dos casos, um homem é acusado de um delito e segundo o policial ele teria pulado um muro para fugir da polícia. O juiz faz o julgamento do acusado sem notar que o réu era paraplégico e, portanto, não poderia ter pulado um muro. Quando o acusado pede para ser transferido para um hospital (pois tem dificuldades de locomoção dentro das celas por causa da superlotação) o juiz diz que nada pode fazer a respeito.

O documentário Justiça nos mostra o caos em que se encontra o sistema judiciário Brasileiro. Juízes tendo que julgar muitos casos por dia, com uma polícia corrupta que espalha o medo nas comunidades e um sistema carcerário que trata seres humanos como insetos, são alguns dos ingredientes que encontramos ao assistir Justiça, um documentário maravilhoso que abre nossos olhos para o fato de que necessitamos de uma reforma no sistema judicial e que tirar a liberdade das pessoas não está resolvendo o problema da violência no Brasil, está apenas aumentando a desigualdade e a violência.
Por Érika Lima

Ficha técnica:
Direção: Maria Augusta Ramos
Duração: 100 min
Ano: 2004
Categoria: documentário

quarta-feira, 2 de março de 2011

Local para exibição em Março/2011

Salve cineclubistas!!!

Fim das férias, retorno das atividades. Muita gente já estava "cobrando" as sessões do cinedeLírio...

Para o mês de março temos uma novidade: nossa antiga sala de exibição (nanoauditório do NCH) vai virar banheiro, as obras já começaram...

A galera da biblioteca entrou como parceiro e nos forneceu uma sala para as exibições neste mês. Ainda não sabemos como faremos em abril...

Lembrando: toda sexta-feira, às 17:01 h, na sala da biblioteca da UNIR, no térreo.

Dizem que vai ter Centro Acadêmico regando o debate com insinuações dionisíacas de saraus. Vamos ver se é verdade.

Saúde e liberdade! Diga NÃO ao R$ 2,60.

terça-feira, 1 de março de 2011

Monstros e fantasmas

A tese central deste filme de Spike Jonze (2009) parece ser que há monstros (que alguns chamariam de demônios quando se referem aos nossos anjos, demônios e fantasmas) em cada um de nós. Esta, no entanto, não corresponde bem à questão principal de Maurice Sendak (1963), escritor de Where the wild things are, que serviu de base para a adaptação de Spike Jonze. A crítica negativa do filme reclama da falta de fidelidade.

Tanto no livro como no filme, Max toma bronca da mãe e se refugia na própria imaginação. No filme, Max foge de casa, atravessa um oceano e aporta numa ilha. No livro, Max vai pro quarto e se enfia debaixo das cobertas. Na imaginação do menino, é criada uma floresta habitada por monstros que ele consegue dominar. A adaptação cinematográfica é muito mais psicologizante que o livro infantil ilustrado, e explica aos adultos como a criança trabalha com toda a violência que guarda dentro de si.

Onde vivem os monstros é um filme esquisito, e isso tem um pouco a ver com o diretor: Spike Jonze dirigiu os pouco convencionais Quero ser John Malkovich e Adaptação, além de uma extensa lista de videoclips. Visualmente, o filme é bastante estimulante. Psicologicamente, é levemente incômodo, porque desperta os nossos fantasmas da infância. 

Para iniciar a temática VIOLÊNCIA, esolhemos um filme que parte do pressuposto de que carregamos todos uma certa quantidade de agressividade em nós e que mostra como uma criança lida com essa "violência interna".

Onde vivem os monstros: Where the wild things are
Release: 2009
Diretor: Spike Jonze
Elenco original: Max Records, Catherine Keener, Mark Ruffalo
Gênero: Fantasia
Distribuição: Warner Brothers
Orçamento: $ 115 milhões.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Nova bolsista!!


O cineclube deLírio tem uma nova bolsista. Foi feito um sorteio dos títulos dos filmes a serem resenhados e cada candidato escreveu uma resenha de acordo com o título sorteado. A classificação das resenhas ficou assim:

Sempre as horas (Érica dos Santos Lima)
Ônibus 174: a crueza da realidade (Luiz A. Mopi Lafuente)
Soy Cuba (Laila Karla Lima Duarte)
A culpa é do Fidel? (Julie Paula Teixeira de Menezes)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Seleção de bolsista!

Dia 10 de dezembro, sexta-feira, entre 12:00 e 14:00 acontecerá a seleção do/a bolsista que substituirá a dupla Paulo e Guilherme até abril de 2011 no cineclube.
Os candidatos interessados à vaga deverão comparecer no Departamento de Línguas Vernáculas e escrever uma resenha sobre um dos três filmes que lhe serão sugeridos.

E perdoem a foto do Dunga, mas foi a melhor imagem pra expressar 'seleção'.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ônibus 174 e a tragédia brasileira



Jardim Botânico, Rio de Janeiro, início da tarde. Um ônibus parado compõe o cenário de uma trágica história. Dentro do ônibus 174 – Central, via Humaitá, pessoas são transformadas em reféns de um sistema desigual de distribuição de renda, da terra, da informação, de oportunidades... Sandro atua no papel do bandido, malvado, drogado, assassino e todos esses estereótipos atribuídos aos sujeitos que a nossa sociedade não soube cuidar. Os demais reféns são os passageiros de uma viagem rotineira, mas que naquele dia se tornaria difícil de esquecer.

Pode até parecer um roteiro de filme de ação hollywoodiano, mas trata-se de um documentário de José Padilha sobre um episódio que ficou muito conhecido na época, devido à grande exposição do evento pela televisão brasileira.

As primeiras imagens aéreas do documentário apresentam um aglomerado de favelas que compõem grande parte da cidade do Rio de Janeiro. Uma antiga pergunta vem à tona: para onde foram os ex-escravos após a farsa da abolição? Há quem diga que no sistema capitalista não há excluídos, todos são incluídos de alguma forma, seja como mendigo, camelô ou bandido. Sérgio Bianchi fala do grande negócio que são as construções de presídios no país, esses navios negreiros contemporâneos.

Padilha faz um passeio pelo Rio e encontra outras pessoas conhecedoras da trágica história de Sandro Rosa do Nascimento, que poderia ser Sérgio, Ricardo ou Ninguém, tanto faz, pois são todos filhos da desgraça, vítimas e às vezes algozes dessa narrativa violenta.

Os chamados Meninos e Meninas de Rua dão seus depoimentos para o documentarista e nos deixam a par de uma outra história, diferente daquela que aprendemos a reproduzir. “Querem ser vistos”, diz o antropólogo Luiz Eduardo Soares, sobre a invisibilidade promovida pela sociedade que os cerca. Estão “famintos de existência social”, completa o antropólogo.

O documentário apresenta o despreparo da polícia mais especializada do Estado do Rio de Janeiro, o discurso de um traficante analisando friamente toda a situação, os depoimentos das pessoas que estavam no ônibus, a fala de especialistas, de parentes etc.

Nesta última temática do cineclube deLírio, Discriminação, temos muito o que refletir sobre os valores que aprendemos e reproduzimos. Neste momento o Rio sofre ataques violentos nas ruas, ainda não vi na TV ou nos jornais uma reflexão próxima a essa que Padilha propõe em Ônibus 174.

Nossa tragédia urbana é fruto de um conjunto de fatores históricos, de escolhas políticas, de concepções de economia que numa espécie de caldeirão perverso transforma-se nesse caldo azedo que somos obrigados a tomar. O pior, tem gente que se acostumou com o azedume do caldo e nem pensa em mudar os ingredientes.

Ficha Técnica
Título original: Ônibus 174
Gênero: Documentário
Duração: 128 min.
Lançamento (Brasil): 2002
Distribuição: Riofilme, ThinkFilm Inc e Zazen Produções
Direção: José Padilha
Co-direção: Felipe Lacerda
Produção: José Padilha e Marcos Prado
Co-Produção: Rodrigo Pimentel
Música: João Nabuco e Sasha Ambak
Fotografia: Cesar Moraes e Marcelo Guru
Pesquisa: João Alves e Fernanda Cardoso

Elenco
Yvonne Bezerra de Mello
Rodrigo Pimentel
Sandro do Nascimento
Luiz Eduardo Soares

Premiações
- Prêmio de Melhor Documentário, Melhor Diretor de Documentário (José Padilha), escolhido pelos leitores do Adoro Cinema Brasileiro, 2003.

- Melhor Documentário do júri do Festival Internacional de Cinema de Miami, 2003.

- Melhor Filme - Documentário, no Festival do Rio BR 2002.

- Prêmio Adoro Cinema 2002 de Melhor Documentário.

- Ônibus 174 venceu o troféu Bandeira Paulista na categoria documentário, na 26ª Mostra BR de Cinema - Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, 2002.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Precious

A última temática do ano é DISCRIMINAÇÃO. Dependendo do ângulo de que se aborda o tema, é possível fazer diferentes escolhas. Seria possível, por exemplo, escolher um filme em que negros são maltratados por causa da cor de sua pele. Assim, faria-se o recorte de um filme em que a questão da discriminação racial é explorada. Se o filme escolhido tratasse da falta de oportunidade oferecida aos que já possuem um baixo poder aquisitivo, então estaria-se privilegiando a discriminação social. Se, por outro lado, o filme escolhido apresentasse analfabetos que são tratados como menos humanos por não saberem ler e escrever na sociedade que toma essa habilidade como base da formação do cidadão, a questão da discriminação social se apresentaria sob outro aspecto. Discriminação racial e social são temas bem explorados no cinema, mas não são os únicos ângulos possíveis de se observar a discriminação. Seria possível detectar discriminação num filme que mostra obesos solitários e deprimidos, ou num filme que mostra uma mãe que rejeita seu filho com Síndrome de Down. 

Pois Precious é um filme que concentra (quase) todas as formas de discriminação possíveis. Claireece Precious Jones (Gabourey Sidibe) é a personagem principal: negra, obesa, pobre, analfabeta, mãe pela segunda vez aos 16 anos. Mesmo quando Precious não concentra em sua pessoa o alvo da discriminação, temas como por exemplo a homossexualidade estão presentes no filme.

O diretor, Lee Daniels, também participou da elaboração de A última ceia (Monster's Ball, 2001). Neste filme, Leticia (Halle Berry) é a atriz que incorpora a vítima da discriminação racial exercida pelo agente penitenciário que executou (sim, existe pena de morte nos EUA) seu marido. Neste filme, o espectador é confrontado com um homem branco que se apaixona por uma mulher negra e luta contra o seu racismo arraigado. Em Precious, não há dualidade (desejo e repulsa, amor e ódio, natural e tradicional): Precious é um ímã que atrai qualidades que são discriminadas na sociedade americana atual. Precious não é sexy como Leticia, mas em seus devaneios, se vê como uma superstar de Hollywood. Precious não é desejada como Leticia, mas quando a mãe não está, é estuprada pelo pai. Precious não demonstra suas emoções como Leticia, mas a partir do momento em que domina a técnica da escrita, usa o seu diário para exteriorizar sentimentos e organizar emoções. 

O maior contraponto a Precious é sua mãe. É Mary (Mo'Nique, vencedora do Globo de Ouro) quem a humilha e maltrata diariamente. É a mãe que disputa com Precious o mesmo homem, é ela que recebe o dinheiro da pensão pela primeira filha de Precious, e é ela que não admite uma criança com Síndrome de Down em casa. O egocentrismo da mãe sufoca Precious. Nesse sentido, a técnica de filmagem faz com que as cenas no espaço compartilhado pelas duas sejam claustrofóbicas.

Preciosa - Uma História de Esperança

Precious: Based on the Book "Push" by Sapphire
EUA , 2009 - 110 minutos
Drama
Direção: Lee Daniels
Roteiro: Damien Paul
Elenco: Gabourey "Gabbie" Sidibe, Mo'Nique, Paula Patton, Lenny Kravitz, Mariah Carey, Sherri Shepherd

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O moderno em tempos de cólera

Tragicômico, sensível e realista, esses são alguns adjetivos que podem definir a película. Todavia, Tempos Modernos vai além: filmado em 1936 - sete anos após a crise da Bolsa de New York- é dirigido por Charles Chaplin, que interpreta um operário que tenta sobreviver no mundo moderno e industrializado de uma grande  cidade norteamericana.

Tempos Modernos possibilita uma reflexão  histórica-social  sobrecinema a partir de duas ópticas que se relacionam. A primeira é a possibidade prática do fazer cinema (inventada pelos irmãos Lumière), como reflexo de um desenvolvimento que se fez possível a partir de avanços e  aperfeiçoamentos científico-tecnológicos das câmeras fotográficas, dando origem à filmadora. A segunda é a utilização desses instrumentos para a consolidação da sétima arte. Ao contrário da maneira mecanicista que originalmente foi empregada (o trabalho era ligar a câmera e filmar), o cinema aparece como uma manifestação artística construindo formas, estilos e sentidos, subjetivos ou coletivos.

O cinema foi posteriormente empregado até mesmo para consolidação de ideologias (como aconteceu no período do Terceiro Reich na Alemanha nazista) e serviu para materializar interesses econômicos a serviço das grandes indústrias da moda e do tabagismo (entre outros, principalmente no cinema Holiwoodiano). Naquela época, era novidade pensar uma produção, a edificação de histórias com ideias criativas, o cinema literalmente como arte, possuidor de formas que apresentam seus intentos a partir da relação de ideias de um conjunto de artistas (diretor, roterista, sonoplasta, maquiador, diretor de fotografia etc.). Nesse sentido, Chaplin foi um mestre: dirigia, atuava, produzia e fazia a trilha sonora da maioria de seus filmes

Em Tempos Modernos, seu último filme mudo, Chaplin apresenta de forma cômica uma conjuntura histórica de exploração da classe trabalhadora pela alta burguesia industrial, devido principalmente à consolidação do modo de produção capitalista.

Como a maioria de seus filmes, Tempos Modernos é narrado em forma de sátira social. Na percepção marxista, o filme destaca como a classe operária (proletária), é explorada quase em regime escravocrata (mais-valia e alienação), pelos burgueses detentores dos meios de produção. Chaplin apresenta a desumanização do trabalho, que cada vez mais tornava-se mecanicista. Mostra a injustiça como válvula propulsora das revoltas e manifestações por mudanças na estrutura. Tempos Modernos é uma verdadeira obra prima da cinematografia mundial.
Por Paulo Alberto

·  Título original:Modern Times
·  gênero:Comédia
·  duração:01 hs 27 min
·  ano de lançamento:1936
·  site oficial:
·  estúdio:United Artists / Charles Chaplin Productions
·  distribuidora:United Artists
·  direçãoCharles Chaplin
·  roteiro:Charles Chaplin
·  produção:Charles Chaplin
·  música:Charles Chaplin
·  fotografia:Ira H. Morgan e Roland Totheroh

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Ponto de Mutação


Bernt Capra dirige este filme que foi produzido com base no livro escrito pelo seu irmão, o físico austríaco Fritjof Capra. Embora os nomes do livro e do filme originais não sejam os mesmos, no Brasil, ambos foram traduzidos como “O ponto de mutação”. 

A montagem do filme é relativamente simples se comparada a filmes com uma linguagem mais hollywoodiana. O enredo é basicamente: um poeta, uma cientista doutora em física e um político norte-americano, em um dia de muita discussão e passeio pelo belo Mont Saint Michel. A simplicidade fica por aí, pois o filme  é composto de diálogos muito densos do começo ao fim.

Já na primeira cena em que o trio trabalha junto, o político profissional Jack Edwards (Sam Waterson) e o seu amigo, o poeta Thomas Harriman (John Heard) ainda estão conversando sobre os motivos que teriam levado o político a ser derrotado nas eleições para a presidência dos EUA, quando, influenciados pelo ambiente, iniciam uma conversa sobre o impacto que a invenção do relógio teria tido sobre a história da humanidade. É esse o momento em que o personagem de Liv Ullmann, uma doutora em física decepcionada com a dissonância existente entre os desdobramentos práticos da sua pesquisa e a sua motivação inicial, é chamado a entrar em cena.

O político não consegue entender por que pessoas inteligentes como a doutora são desiludidas com a política nos EUA e ela, utilizando-se do relógio medieval, começa a explicar suas motivações. A tese da doutora em física quântica é que a sociedade atual sofre de uma crise de percepção e isso teria ocorrido porque o pensamento não acompanhou as transformações que ocorreram no planeta.

Daí em diante, as discussões se adensam cada vez mais e o cenário medieval do Mont Saint Michel, em algumas passagens parece se tornar mais um dos personagens do filme. As construções medievais utilizadas como cenário têm um efeito quase que dialógico no desenrolar do filme, pois elas servem de mote para boa parte das discussões; além de evidenciar as distâncias existentes entre o mundo medieval e a modernidade.
A visão de mundo cartesiana, com a sua perspectiva mecanicista e fragmentária, segundo a doutora, não daria mais conta da modernidade e teria de dar lugar a uma visão holística da realidade. Sendo assim, política, ecologia e ciência não poderiam ser dissociados, nem analisadas isoladamente em detrimento do todo. Uma série de problemas contemporâneos como a fome no hemisfério no sul, o endividamento das antigas colônias das metrópoles mercantilistas etc., são trabalhados pela doutora de modo a evidenciar as relações destes problemas com uma série de outros. Deixando clara a necessidade de uma nova percepção da vida.

Mas o que é a vida? A doutora, através da visão da física quântica, afirma que a vida é a propensão para a auto-organização. Nesse momento, o poeta que ocupa um papel secundário nas conversas ao longo de todo o filme, se torna o protagonista da cena e demonstra como a visão da vida proposta pela física contemporânea, por mais progressista que possa parecer, também é mais um conceito, uma mera fórmula, uma simplificação da extrema complexidade que é a vida.

Por Guilherme Veppo

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Das coisas que podem germinar



Entre os escombros de uma velha mina de carvão, um forasteiro observa atônito o movimento de trabalhadores errando madrugada adentro. Assim começa Germinal, um filme de Claude Berri, inspirado em obra homônima de Émile Zola.

O livro de Zola foi publicado em 1885, pouco depois da criação da chamada Primeira Internacional, um movimento que pretendia associar todos os trabalhadores do mundo para unirem-se contra a exploração do Capital. O próprio Zola trabalhou como mineiro antes de escrever o livro. O filme é de 1993, período em que uma nova crise do capitalismo se agravava, explodindo greves e rebeliões por todos os lados. São duas horas e meia de filme...

A história acontece em meados do século XIX. O cenário são as minas de carvão e toda a sua produção de riquezas e de horrores. Condições miseráveis de vida que conduzem mulheres, homens, jovens e crianças ao trabalho nas minas. O filme apresenta as contradições do modo de produção capitalista, uma das características daquilo que chamamos de modernidade. Crise com o aumento da produção, trabalho precarizado, desemprego, lutas sociais e hipocrisia burguesa são alguns dos ingredientes do filme.

A cena em que uma mãe vai com seus dois filhos em busca de ajuda numa mansão burguesa caracteriza as relações sociais entre patrões e trabalhadores. Enquanto o luxo habita as mansões, a desgraça se abate sobre a casa dos proletários, um termo cunhado por Marx para definir aqueles que recebiam pelo seu trabalho apenas o suficiente para reproduzir a prole. Em cenas como essa germina a indignação...

O filme apela para a revolução. Há debates entre perspectivas socialistas, anarquistas, sendo estas um tanto estereotipadas no filme, e até social-democrata em alguns pontos. Entre propostas revolucionárias e reformistas, os trabalhadores resolvem aderir a uma greve que provocará consequencias fulminantes em suas vidas. Nessas cenas germina a necessidade de organização...

Apesar da infeliz condição de vida desses trabalhadores, a situação pode ficar ainda pior, comprovando a famosa tese de Schopenhauer. Algumas ideias de Marx, Proudhon, Bakunin, entre outros, estão presentes nos personagens de Étienne, Rasseneur e Souvarine: organização dos trabalhadores e importância da consciência de classe, a ação direta dos trabalhadores, as noções de coletivismo numa sociedade fundada nas relações de trabalho, luta por melhores condições de trabalho sem mudança no modo de produção etc.

O que entendemos por modernidade é fruto das transformações ocorridas na estrutura das sociedades a partir de vários elementos: substituição da explicação teológica pela científica, passagem do feudalismo ao capitalismo, aumento das cidades, alterações profundas nas relações entre os indivíduos e mundo social que os abriga etc.

Nas Ciências Sociais identificamos essas características nas obras dos nossos clássicos: a dominação burocrática em Weber, a divisão do trabalho social em Durkheim e o modo de produção capitalista em Marx. Aliadas às obras de Freud e de Nietzsche, os clássicos das Ciências Sociais discutem esse novo mundo, com o fim de entender, explicar e intervir (n)a realidade social.

Uma coisa fica clara no filme, a morte não tem preconceitos, ela é universal. Por entre as cenas dramáticas de Germinal, é possível aproveitar alguns momentos de lazer dos trabalhadores. E ainda, a esperança de que nos lugares e situações mais inusitadas pode germinar o amor.


Ficha técnica

Título original: Germinal
Gênero: Drama
Duração: 160 min
Ano de lançamento: 1993
Direção: Claude Berri
Países: França, Bélgica e Itália
Temática Cineclube Delírio: Modernidade
Elenco principal:
Miou-Miou - Maheude
Renaud - Étienne Lantier
Jean Carmet - Vincent Maheu dit Bonnemort (Boa Morte)
Judith Henry - Catherine Maheu
Jean-Roger Milo - Chaval Antoine
Gérard Depardieu - Toussaint Maheu
Laurent Terzieff - Souvarine
Jean-Pierre Bisson - Rasseneur

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A modernidade dos extremos




Robson dos Santos

O século XX experimenta a modernidade em suas múltiplas configurações e potencialidades, sobretudo as destrutivas. Neste curto, porém extremo período, os indivíduos, as classes e as sociedades são lançadas em uma experiência social, política e cultural que aprofunda as reconfigurações e referências que já emergiam em períodos anteriores. Ciência, produção em massa, consumismo, revoluções, movimentos sociais, burocratização, guerras e a destruição definem a identidade do século XX. Daí a morte e a sua parada definitiva, o cemitério, representarem o fio condutor da montagem visual de Nós que aqui estamos por vós esperamos, documentário brasileiro de Marcelo Marsagão construido sobre imagens, cenas e personagens, reais e fictícios, do século passado.
O filme possui como inspiração “teórica” as obras do psicanalista Sigmund Freud e do historiador Eric Hobsbawn, principalmente as reflexões contidas nas obras O mal estar na civilização e A Era dos extremos. Do primeiro tenta apreender o impulso destrutivo que caracterizaria a espécie, do segundo extrai uma compreenssão sutil dos extremos produzidos em um século de guerras, extermínios e tranformações estruturais amplas. O id parece se realizar por meio da ciência que converte  parte de suas promessas de domínio e libertação da humanidae frente à natureza em técnica de guerra, genocídios, extermínios e guerras. Estes processos, por sua vez, implicam na existência de seres reais, sujeitos que sonham, que sentem dor de dente, que torcem para um time, preferem uns livros a outros etc. É nesta dialética entre a experiência individual e as estruturas que a história do século XX se realiza. Tanto a esperança de liberdade que as revoluções comportam, quanto os sombrios momentos de guerra são feitos sobre e com tais sujeitos reais, que evidentemente fazem a sua história, mas sob determinadas condições. 
A “leitura” feita por Masagão recorre a uma costura poética e bem elaborada de imagens de arquivo e de obras cinematográficas. Não se coloca a distinção entre realidade e ficção. De fato é irrelevante se os personagens individuais existiram “realmente”, mas sim que a existência destes sujeitos é completamente verossímel. De outro lado, torna-se ainda mais verossímel a vinculação entre os destinos individuais e as estruturas históricas. O século XX revelou isso em sua totalidade.  
Cabe uma nota especial para esta maravilhosa montagem no que se refere à trilha sonora. A integração que ela opera entre as cenas é fantástica. Não porque manipule as imagens a ponto de convertê-las numa sequência linear, mas sim porque consegue captar os ritmos dialéticos que o processo histórico assume, sobretudo na modernidade.
A imagem do looping da montanha russa talvez seja uma metáfora que ajude a compreender a modernidade no século XX: uma sequência de movimentos distintos que deslocam os sujeitos ao mesmo tempo que os mantém presos na cadeira, momentos de segurança seguidos de insegurança. A inconstância, a impermanência, a transitoriedade seriam outras formas de traduzir a existência neste século que não inventa, mas experimenta radicalmente as consequências da modernidade.
Nada melhor para compreender este período do que recorrendo à forma estética mais caracteristica da modernidade: o cinema. Nós que aqui estamos por vós esperamos revela-se, neste sentido, como uma crônica privilegiada.   



Ficha técnica

Título original: Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos
Gênero: Documentário
Duração: 73 min
Ano de lançamento: 1998
Direção, roteito e produção: Marcelo Masagão
Música: Wim Mertens
Fotografia: Marco Túlio Guglielmoni
Temática Cine Delírio: Modernidade

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

As possibilidades do impossível



Uma casa grande? Uma tradição árabe-brasileira? Uma lavoura arcaica? Uns talvez encontrem tudo isso no filme de Luiz Fernando de Carvalho, outros talvez percebam mais que isso. O filme é denso mesmo, no sentido em que Gilbert Ryle define o conceito de denso. A história é narrada por André (Seltom Mello), que vive um amor desenfreado por Ana (Simone Spoladore). A subjetividade do narrador questiona a ética e a moral vigentes. É possível que todas as funções dos desejos humanos sejam contempladas nessa lírica exposição de sentidos que ao final se apresenta trágica. São quase três horas de filme em que a gente só bate a pestana porque não consegue conter a involuntariedade dos músculos das pálpebras.

O filme é fruto de uma leitura caprichada do livro homônimo de Raduan Nassar. Os atores dão um banho de interpretação. Ana não diz uma só palavra. Às vezes parece até que é um teatro filmado de alto nível. Nesse sentido, pelo menos quatro linguagens são convocadas para contar a história: a literatura, o cinema, a fotografia e o teatro. LavourArcaica é apenas uma história de uma pessoa que busca a felicidade, uma história muito bem contada, diga-se. Se essa pessoa busca a felicidade é por que ela não a tem no ambiente em que vive. A ilusão de encontrá-la em outros espaços logo se dilui e o retorno ao seio familiar parece abrir novas portas...

O filme traz à tona, entre outras discussões, a questão das relações entre uma tradição, que insiste em ser tradição, representada pela figura patriarcal (Raul Cortez), e uma proposta de inovação dos valores dessa mesma tradição, presente na figura de André. Quem vê o filme logo se embriaga com a tensão presente nos questionamentos angustiados de André, com os carinhos (incestuosos?) de sua mãe e com o cenário de uma casa grande, mediados pela sonoridade de uma música e uma dança que soam árabe, embora com citações de brasilidade.

Um filme para assistir pelo menos umas cinco vezes durante uma vida de 40 anos, quem pretende viver mais que isso que o assista mais vezes. Aproveite e mergulhe nos extras, cheios de depoimentos dos atores, diretores e demais pessoas conhecedoras da obra de Raduam Nassar, de Heidegger, de Rimbaud, de Artaud, entre outros malditos.

Serviço:
Lavoura Arcaica: Direção e roteiro de Luiz Fernando Carvalho, estrelado por Seltom Mello, Leonardo Medeiros, Simone Spoladore, Raul Cortez e Juliana Carneiro da Cunha. Fotografia de Walter Carvalho. Trilha sonora: Marco Antônio Guimarães. Prêmios: Melhor Contribuição Artística – Festival de Montreal – Canadá – 2001; Prêmio Especial de Júri: Festival de Biarritz – 2001; Prêmio do Público: 25ª Mostra BR de Cinema – São Paulo – 2001; Prêmio Ministério da Cultura – Festival Rio-BR 2001.