quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Perdidos no tempo

Estou perdida no tempo. Passei uma semana fora e quando voltei, não me dei conta de que o tempo aqui tinha passado. Na minha percepção, eventos do passado e presente estavam alocados no futuro. No entanto, Lola já tinha corrido e fui aboiada para a sessão no SESC enquanto o filme era exibido. Isto significa que esta resenha é, diferente das outras, um post scriptum.

O primeiro filme exibido foi o curta de 15 minutos Morte. de José Roberto Torero. Laura Cardoso e Paulo José fazem o casal que se engaja nos preparativos para a própria morte. Passeiam pelo cemitério escolhendo lápides e flores, encomendam o caixão, ensaiam o funeral com os amigos, redigem o testamento e arrumam as malas. Quando tudo está pronto, esperam a Morte chegar. Mas a Morte não avisa quando vem visitar.

Semelhante desorientação no tempo é trabalhada no conto dOs sete enforcados, de Leonid Andreiev. Os sete personagens do escritor russo são condenados à forca. Ao contrário do casal do curta, os sete sabem exatamente quando morrerão, e o conto todo se desenrola sobre como eles ocupam seu tempo até a chegada da morte programada. Em ambos os casos, o modo como se aproveita o tempo antes do ponto final é tematizado. No curta, um período de tempo de vida é preenchido com preparativos para a morte. No conto, um período de tempo semelhante é preenchido com tentativas de contornar o momento derradeiro.

O outro filme da noite foi Aboio, de Marília Rocha. Trata-se de um documentário lindíssimo que leva a assinatura da documentarista mineira. Marília Rocha deixa a câmera filmando depois de obter a resposta do entrevistado, esperando por uma eventual continuidade. Com a curiosidade de uma criança, ela foca na garganta de onde sai o som, como se buscasse o momento em que é produzido. Por vezes, ouvimos sua voz, mais raramente seus comentários sobre a filmagem. Enfim, percebemos seu estilo de contrapor um clímax com uma cena contemplativa. Nessas cenas, em que pássaros rodeiam no céu, podemos ruminar as imagens vistas, as estórias narradas, o aboio e o olhar manso do boi.

Também aqui podemos observar um descompasso. Em algumas cenas, o som é editado de tal maneira que o vaqueiro que vemos contando causo não enuncia a voz que ouvimos do narrador. Em outro momento, o som é cortado enquanto vemos o vaqueiro tampando o ovido esquerdo e cantando com o diafragma. Os depoimentos de vaqueiros que não valorizam o traje de couro e que se renderam à carreta que transporta o gado pelo asfalto estão no início do documentário (e mais perto da atualidade), enquanto os depoimentos de vaqueiros que aboiavam desde meninos e que seguem a tradição estão no final da película (e mais presos no passado). Por fim, há imagens captadas com a câmera Super 8 costurando toda a obra.

Marília Rocha brinca com o tempo quando dá voz a diferentes gerações: velhos vaqueiros e Lirinha, vocalista do recém-extinto Cordel do Fogo Encantado. Ela fixa o tempo da tradicional prática do aboio quando faz o documentário que registra as estórias, os falares, os cantos, os rostos, as rugas, a transformação do tempo. Através das imagens de Super 8, cria um efeito de antigo que serve de guia para o futuro. Através do canto, nos guia pelos sertões da Bahia, Pernambuco e Minas.

Apesar de serem filmes datados, nos mostram como estamos perdidos em relação à linha do tempo: incapazes de prever o fim do nosso tempo na Terra, desconhecemos algumas tradições que nos transcendem e preenchemos o nosso tempo com a busca do progresso, desenvolvimento e dinamismo.

Morte.
Direção e roteiro: José Roberto Torero
Elenco: Laura Cardoso e Paulo José
Gênero: Ficção
Duração: 15 minutos
Ano: 2002.

Aboio
Direção: Marília Rocha
Gênero: Documentário
Duração: 73 minutos
Ano: 2005.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sobre as diferenças que o tempo pode fazer



São "apenas" vinte minutos... O "apenas" vem entre aspas porque a intenção é chamar a atenção para as infinitas coisas que podem acontecer dentro de certos intervalos de tempo que nossos relógios insistem em querer medir com a precisão positivista das sociedades modernas.

Durante vinte minutos Lola (Franka) tenta desesperadamente salvar seu namorado de uma grande enrascada. O namorado, Manni (Moritiz), trabalha para um poderoso gângster. Um descuido de Manni pode levá-lo à morte, caso Lola não chegue a tempo de intervir na tragédia...

Muita grana envolvida na trama. Talvez para despertar na plateia a força sedutora que o dinheiro exerce em nossas vidas. Talvez para mostrar que se trata de algo muito importante, cujo dinheiro é acionado pela narrativa do filme como uma metáfora de coisas indispensáveis à vida, o que me parece bem pior.

Manni encontra a solução na tentativa de assaltar um banco, enquanto Lola tenta ajuda junto ao pai que é muito rico. Um mero acidente que acontece pelo caminho muda todo o desenvolvimento da trama, trazendo consequências das mais diversas.

Um filme sobre um dos temas mais discutidos na modernidade, o tempo. De que estamos falando afinal? Como percebemos o tempo a nossa volta? O que é mais importante em nossas vidas? Como usamos o tempo que temos? Somos capazes de aumentar, diminuir ou desprezar o tempo?

Essas e outras questões emanam das cenas de Corra Lola, Corra. Despertando angústias, alegrias e pensamentos mil... Oxalá sirvam para direcionar melhor as nossas escolhas.


FICHA TÉCNICA:
Título Original: Lola rennt
Gênero: Ação
Alemanha, 1998

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O curioso Caso de Benjamin Button




O ser humano nasce e no decorrer de sua vida passa por várias etapas no seu desenvolvimento. A infância normalmente é o período em que a pessoa começa a descobrir as coisas da vida e dispõe de saúde e energia em abundância. No período da adolescência até a idade adulta é vivido o ápice da vida. A velhice que na maioria das vezes está acompanhada de doenças que acompanham a idade é também marcada pela idia de que a morte se aproxima. É através destas mudanças que observamos a influência do tempo em nossas vidas. O filme O Curioso Caso de Benjamin Button é baseado no conto de Scott Fitzgerald e apresenta a história de um homem que viveu toda sua vida fora dessa linearidade convencional. Benjamim nasce com a aparência de um velho de mais de 80 anos e consequentemente apresenta os males que normalmente acometem pessoas com idade avançada.
Benjamim é abandonado pelo pai e cresce em um asilo, local onde conhece Daisy, neta de uma das moradoras do asilo. Juntos eles vivem a infância e todo o processo que envolve esse período, porém Benjamim se desenvolve com a saúde debilitada e vive confinado nas dependências do asilo. Eles se apaixonam, mas caminham em direções opostas, pois ela envelhece e ele rejuvenesce. Suas vidas se cruzam em apenas uns momentos, quando eles possuem quase a mesma idade, e depois é impossível manter a relação porque ela está cada vez mais velha e ele mais jovem.
O filme faz uma reflexão interessante sobre o tempo. Benjamin vive um destino contrário ao tempo. É como se sua vida fosse vivida de “trás para frente”. Também observamos algumas semelhanças entre o período da infância e o da velhice (o bebê tem dificuldades para andar assim como uma pessoa com mais de 80 anos de idade), como se o tempo fosse cíclico, como se caminhássemos para certo ponto e depois regredíssemos. Outra reflexão presente no filme é a diferença entre a mente e o corpo físico do personagem em oposição ao tempo da vida de uma pessoa.
Um espetáculo à parte é a parte técnica da película que vai desde a maquiagem até os efeitos especiais. Sem dúvida a maquiagem é o que chama atenção, pois Brad Pitt e Cate Blanchett interpretam seus personagens em várias fases da vida. O filme é interessantíssimo, reflexivo e nos permite observar outra faceta do tempo.
Ficha técnica:
Diretor: David Fincher
Ano: 2009
Gênero: Drama
Duração: 159 min

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tempo de despertar



Ao despertarmos, uma série de processos psicossomáticos tomam conta de nosso cérebro. Esses processos nos orientam no tempo, mantendo uma noção temporal através dos nossos sentidos e dos nossos afazeres, de forma geral, das coisas simples que exercemos. O que vivemos é marcado por um tempo, o que fazemos e o que não fazemos também é marcado por um tempo. A passagem desse tempo é subjetiva de modo que cada um a sente de uma maneira diferente.

O filme Tempo de despertar é baseado em fatos reais: o neurocientista Oliver Sacks testemunhou um pequeno milagre quando foi exercer seu primeiro emprego, num hospital psiquiátrico. No filme, acompanhamos um tempo adormecido vivenciado por pessoas em estado catatônico. Esses pacientes não exercem nenhuma atividade a não ser comer e dormir. São pessoas paralisadas no tempo. Com essa visão, o doutor Malcolm Sayer interpretado por Robin Williams, passa a analisar e buscar respostas sobre essa “doença do sono”, pois ele suspeita que seus pacientes estejam com Parkinson exacerbado e que, se medicados corretamente, podem despertar.



É interessante notar no filme que mesmo após décadas de adormecimento, os pacientes sentiam em si a vontade de viver, de aproveitar tudo o que não haviam vivido antes. Eles voltam para uma realidade completamente diferente daquela vivenciada antes da encefalite letárgica. O tempo se torna valioso e cada segundo do “despertar” é aproveitado. O tratamento faz com que despertem também antigas habilidades como cantar, tocar piano, dançar etc. Esses momentos de diversão proporcionam a eles a esperança de viver, de explorarem novos lugares e de vivenciarem as coisas simples da vida.

A nossa percepção de tempo é algo completamente relativo: há quem queira viver intensamente, assim como há pessoas que vivem como se estivessem adormecidas no tempo. Ao "pararmos" o tempo, pausamos a nossa vida, entretanto a sociedade continua a exercer suas atividades. O tempo não para.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Penny Marshall
Elenco: Robert DeNiro, Robin Willians, Julie Kavner, Ruth Nelson, John Heard
Produção: Elliot Abbott, Elliot Abbott, Lawrence Lasker
Roteiro: Paul W. Shapiro, Steve Zaillian
Fotografia: Miroslav Ondrícek
Trilha Sonora: Randy Newman
Duração: 120 min.
Ano: 1990
País: EUA
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Não definida
Estúdio: Columbia Pictures Corporation


terça-feira, 2 de agosto de 2011

4° Mostra For Rainbow

Nos dias 19 e 20 de agosto (mudou!!) acontecerá, no SESC Esplanada, a 4° Mostra de Curtas For Rainbow. Trata-se de um festival simultâneo em mais de 100 cineclubes brasileiros para discutir a diversidade sexual. A proposta é que cada cineclube exiba os curtas e ofereça outra atividade cultural complementar. Em parceria com o CineSESC, vamos exibir os filmes, promover debates e apreciar uma performance de dança.

No dia 19 de agosto, às 20:00 haverá exibição de curtas e uma mesa-redonda para discutir o tema e os curtas. No dia 20 de agosto, também às 20:00, haverá apresentação de curtas (inéditos) e uma performance de dança.

Compareçam, divulguem!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Antes que o círculo se feche


Desde o Iluminismo, sociedades urbanas concebem o tempo como uma linha. O tempo presente é o momento que coloca os eventos passados atrás de si e os eventos futuros à sua frente. Sociedades rurais pensavam o tempo como um círculo que se fecha e se renova conforme as estações (do plantio, das chuvas, da colheita, das festas, da seca etc.).

No cinema, uma maneira bastante comum de subverter a linearidade do tempo é mostrando flashbacks. Os flashbacks são introduzidos na linha da narrativa, mas são marcados através de filtros de cores, por exemplo, ou uso de outros tipos de película. Essas marcas mostram ao espectador que a linha do tempo foi suspensa e que o que é narrado daquele modo visual diferente é uma fuga da cronologia.

O filme macedônio Antes da Chuva (1994) é, até onde sabemos, o primeiro a subverter a ordem cronológica da narrativa sem recorrer aos flashbacks, editando a ordem dos eventos em três estórias: Words, Faces, Pictures. As três estórias formam um círculo que não se fecha. Amnésia, de 2000, embaralha a ordem dos eventos para criar o efeito de confusão criada pela amnésia do protagonista. 21 gramas, de 2003, repete a fórmula de Amnésia.

Antes da Chuva é um filme muitíssimo premiado não só pela sua edição do tempo, mas pelas possibilidades de interpretação que oferece. Durante a guerra da Bósnia, um fotógrafo renomado, residente na Inglaterra, volta à sua terra natal depois de 16 anos e é confrontado com a violência das disputas locais. Mas não é assim que o filme começa.  

Words conta a estória de uma moça albanesa que vai se refugiar dos vizinhos cristãos no monastério e acaba sendo protegida pelo monge que fez voto de silêncio. Além de ele não dizer nenhuma palavra, os dois pertencem a línguas diferentes. Faces conta a estória da amante (inglesa) do fotógrafo que está grávida do marido. Ela estranha tanto o marido quanto o amante modificado pela violência registrada na guerra da Bósnia. Pictures conta a estória do fotógrafo que tenta se refugiar da guerra e da retidão britânica na Macedônia. Chegando lá, é confrontado com a velha disputa entre os albaneses (vizinhos) e ortodoxos (a família). A garota albanesa que seus familiares estão caçando refugia-se no monastério.

Durante o filme, a frase "O tempo nunca morre, o círculo nunca se completa", é repetida três vezes. A estória não se fecha, (antes progride em forma de espiral) mas o círculo de violência faz com que o filme permita essa reflexão sobre a circularidade.

Directed by Milčo Mančevski
Produced by Marc Baschet
Written by Milčo Mančevski
Starring Katrin Cartlidge
Rade Serbedzija
Music by Anastasia
Cinematography Darius Khondji
Editing by Nicolas Gaster
Distributed by Mikado Film
Release date(s) Italy 1 September 1994 (premiere at VFF)
United States 24 February 1995
United Kingdom 11 August 1995
Running time 113 minutes
Country Republic of Macedonia Macedonia
United Kingdom United Kingdom
Language Macedonian
English
Albanian

domingo, 17 de julho de 2011

De tempos em tempos

A definição de tempo, segundo os dicionários, é dada como a sucessão de anos, dias, horas, que envolve a noção de presente, passado e futuro. Ou ainda é definido como o momento ou ocasião apropriada para que uma coisa se realize. O que sabemos é que o tempo é uma questão fundamental para a nossa existência e que pode ser percebido através dos fenômenos da natureza (transição do dia para a noite, a mudança nas marés, observação dos astros, as fases da lua). A passagem do tempo pode ser percebida sem estar baseada necessariamente na percepção da realidade material, mas também pela maneira como a vida é compreendida pelo indivíduo. Tomando como ponto de partida algumas destas reflexões ,damos início a mais uma temática no cineclube: Tempo. Exibiremos no SESC dois documentários e dois curtas: Ãgtux, Jornada Kamayurá, A Janela Aberta e Entre Paredes.

O documentário Ãgtux (que significa “contar histórias” no idioma Maxakali) apresenta um pouco da cultura da etnia Maxakali que habita o vale do Mucuri em Minas Gerais. No documentário, são contadas algumas mudanças que ocorreram ao longo do tempo. Depois da guerra para obter a posse definitiva de suas terras, receberam terras devastadas pelos fazendeiros que desmataram a floresta para fazer pastos para o gado. Os índios continuam com o hábito de caçar, mas a caça mão é mais a mesma, agora as presas são bois e galinhas, eles também preservaram o hábito de pintar o corpo, mas não usam mais o genipapo e sim tintas industriais. A perspectiva de tempo que vemos neste filme é a resistência dos indígenas que sobreviveram até hoje. Este documentário não tem um narrador, nem um fio narrativo, de modo que a linha do tempo se dilui na contemplação de imagens.
 Jornada Kamayurá apresenta um dia na vida da etnia Kamayurá que vive no o Alto Xingu, próximo à Lagoa de Ipaivu. Quando o sol nasce, os homens e meninos saem em busca da caça enquanto as mulheres e meninas são responsáveis pela preparação do alimento. Neste documentário, a visão de tempo que temos é de um tempo biológico: os índios dormem no fim da tarde e vivem conforme o tempo da natureza.
No curta A Janela Aberta, observamos o entrelaçamento do tempo cronológico com o tempo psicológico através da história de um homem que está prestes a dormir e tenta se lembrar se fechou ou não a janela. Por causa desta simples dúvida, a mente turbulenta do personagem faz uma viagem em sua memória para tentar responder a questão e acaba revivendo e embaralhando vários dias. O passado e o presente se misturam de forma brilhante na história. A maneira de filmar (cortando, acelerando e parando o vídeo) sustenta a confusão temporal do personagem.
No curta metragem Entre Paredes é apresentada a história de um casal de vida simples. O marido é dominado pelo ciúme que logo se transforma em paranóia. Novamente temos o tempo psicológico dominando o personagem que é conduzido pelos pensamentos paranóicos que aceleram ou deixam as cenas mais lentas. Esse artifício é valorizado pela edição do filme que passa algumas partes do video mais rápidas que outras. A trilha sonora deste curta feita por Naná Vasconcelos é um espetáculo a parte, dando um efeito especial nas cenas de paranóia do personagem (o tempo da música acelera nos momentos de delírio do personagem, fazendo com que quem assiste ao curta seja conduzido pelas emoções alucinadas vividas pelos personagens, sentindo-se também sufocado, preso, entre paredes.)
Através dos filmes, temos algumas percepções de como o tempo pode ser percebido e entendido de várias maneiras, seja de forma cronológica, psicológica ou biológica. O que não se pode negar é que o tempo está passando e nenhum de nós pode deixar de acompanhá-lo.

Ficha técnica:
Título: Ãgtux
Duração: 22 min
Ano:2005
Direção: Tânia Anaya

Título:Jornada Kamayurá
Duração: 12 min
Ano: 1966
Direção: Heinz Forthmann

Título: A Janela Aberta
Duração: 10 min
Ano: 2002
Direção: Philippe Barcinsky

Título: Entre Paredes
Duração: 15 min
Ano: 2004
Direção: Eric Laurence

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Projeto aprovado

O nosso projeto de extensão universitária cineclube deLírio foi aprovado (yuhu!), concedendo inclusive duas bolsas (ufa!), conforme pedimos (yeah!!!). Isso significa que continuamos exibindo quatro filmes por temática na Unir Campus (toda sexta às 17:00) e no Sesc (toda penúltima terça-feira do mês às 20:00).

Até segunda ordem, as temáticas são:

  1. Meio Ambiente (encerra essa semana)
  2. Tempo
  3. Obsessão
  4. Morte
  5. Cinema & Literatura
  6. Solidão
  7. Liberdade
  8. Música - provavelmente outra dose de Chico
  9. Revolução
  10. Pós-Modernidade

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Carrocracia

O mapa da violência 2011, publicado em fevereiro, indica que as mortes em acidentes de trânsito aumentaram 32,4% entre 1998 e 2008. Outro estudo mostra que a maioria das vítimas fatais de acidentes de trânsito são homens entre 20 e 39 anos. Envolvidos são: álcool e alta velocidade. São tratados como acidentes, não como homicídios, imprudências ou imperícias. Em tese, não existem acidentes, já que o trânsito deveria seguir regras conhecidas por todos os agentes de trânsito (= todas as pessoas que fazem trânsito: pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas).
Por que as pessoas continuam comprando carros? O trânsito é um campo de batalha sangrento. Para cada morto no trânsito, há 50 feridos. E ferimentos ocasionados por latas em alta velocidade são incapacitantes. As armas são os motores, as armaduras são os vidros escuros que garantem o anonimato.
Por que as pessoas acham que precisam de um carro individual? Um carro é como se fosse a casa que a pessoa pode levar consigo. Porque há carros para todos os bolsos, eles representam o status social do dono do veículo. Dentro do carro, o motorista pode guardar suas coisas, ouvir sua música, se proteger da chuva ou do sol, comer, dormir e até transportar coisas e pessoas. O transporte acaba sendo o último critério, já que um carro individual é muito mais que isso: é sinal de sucesso profissional.

Com o sucesso, vem o prazer. O dono do automóvel diz que tem prazer de dirigir, apesar do stress no trânsito, da raiva que ele sente pelos outros agentes de trânsito, dos assaltos, da solidão entediante e dos radares castradores. O prazer de dirigir vem da sensação de poder sobre a máquina que ele controla e da sensação de velocidade que máquina atinge. Motoristas de táxi e ônibus, segundo Fé em Deus e pé na tábua, de Roberto DaMatta, não sentem prazer em dirigir. Dirigir é a sua profissão, e sua profissão envolve transportar pessoas.
O trânsito brasileiro não é feito de pessoas. O ciclista e o pedestre, por exemplo, não são vistos como pessoas, mas como obstáculos. No entanto, um obstáculo como uma caçamba cheia de entulho, por exemplo, é sempre contornado com boa margem. No mesmo livro, Roberto DaMatta defende a tese de que o trânsito brasileiro não é feito de iguais, submetidos ao mesmo Código de Trânsito Brasileiro, mas é hierarquizado. O motorista vê todos os outros agentes de trânsito ou como superiores (carros importados e grandes: ônibus) ou como inferiores (carros velhos, ciclistas, carroceiros, pedestres). O darwinismo selvagem da segregação natural ignora que o CTB é para todos e que o mais frágil tem preferência sobre o mais forte.

Além de ser uma das maiores causas de morte violenta no Brasil, o carro polui. Sua produção polui, seu uso polui, seu descarte polui. Não existe carro ecológico. Carros demandam asfalto. Asfalto impermeabiliza o solo. São Paulo sabe bem o que é isso: alagamentos. Carros custam caro para serem adquiridos e mantidos. Carros ocupam espaço público. Estacionamentos custam dinheiro, espaço e impermeabilizam o solo. Estacionar um carro na rua é equivalente a colocar um sofá numa vaga: os dois são bens privados ocupando um espaço que é de todos - e mais: um lugar de passagem.

Para fechar a temática Meio Ambiente, escolhemos três documentários feitos por paulistas sobre o trânsito (a maior queixa sobre a cidade), carros e bicicletas. O maior poluidor atual são as minas de carvão. O segundo maior são os carros. Não só a queima de combustível polui, mas a sua produção, a estrutura viária que ele demanda e o seu descarte. Por fim, o carro altera drasticamente as relações humanas.

Thiago Benicchio e Branca Nunes fizeram o documentário de 39 minutos Sociedade do Automóvel como trabalho de fim de curso em 2005. O filme bombou no meio alternativo e cicloativista - mesmo porque o Thiago é participante ativo da bicicletada de São Paulo há anos.

O Desafio Intermodal é uma gincana que acontece todo ano em São Paulo no Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro). O desafio é fazer os 10 km em menos tempo e poluindo menos - em diferentes modos de transporte. Nessa quarta edição, a bicicleta ganhou até do helicóptero.

Cidades para Pessoas foi feito por Natalia Garcia. O objetivo do projeto é mostrar como planejamento urbano é importante para uma boa qualidade de vida de cidadãos. Cidadão é diferente de consumidor. O consumidor é o indivíduo querendo consumir para subir na hierarquia, isolando-se dos outros. O cidadão é o sujeito atento para o seu ambiente, consciente de seus direitos e deveres.

Coincidência ou não, os três vídeos foram elaborados por jornalistas que fizeram da bicicleta o seu meio de transporte principal.

ESPN Brasil - Desafio Intermodal 2009
Renata Falzoni
duração: 4' 49''
Brasil, 2009

Cidades para pessoas
www.cidadesparapessoas.com.br
Natalia Garcia
duração: 6' 51''
Brasil, 2011

Sociedade do Automóvel (Automobile Society)
Branca Nunes e Thiago Benicchio

www.ta.org.br/sociedadedoautomovel
Brasil, 2005 - duração: 39'

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A corporação



Baseado no livro The corporation - the pathological pursuit of profit and power de Joel Bakan, A corporação é um documentário que nos apresenta um pouco do que acontece no mundo das grandes corporações. O filme mostra os vários crimes cometidos por essas organizações e como eles afetam nossas vidas diretamente. O único objetivo dessas empresas é o lucro, mesmo que para isso tenham que destruir o meio ambiente, explorar o trabalho infantil ou até provocar doenças mortais nos consumidores de seus produtos.

Perante a lei norte americana, as corporações são reconhecidas como ‘indivíduos’, ou seja, gozam de direitos como qualquer cidadão. Porém, quando se trata dos crimes cometidos por elas, não existe uma pessoa real para ser responsabilizada pelas atrocidades cometidas por estas empresas. Partindo da ideia de que corporações são indivíduos, o documentário tenta traçar um “perfil psicológico” desses indivíduos. Segundo alguns entrevistados no documentário, trata-se de um caso grave de psicopatia.

Psicopatia é uma doença mental grave, caracterizada pela ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, manipulação, egocentrismo, falta de remorso e culpa por atos cruéis. Todos esses sintomas descrevem com precisão a postura adotada pelas corporações diante da sociedade. Algumas destas empresas demonstram frieza ao explorarem a mão de obra barata de países pobres - inclusive de crianças, para obter maiores lucros. Outras empresas manipulam a população através de propagandas para que as pessoas acreditem que precisam consumir cada vez mais. Novamente o objetivo é o lucro. Outras ainda demonstram total falta de remorso ao utilizarem um produto químico (BST) nas vacas para aumentar a produção de leite que causa dores horríveis no animal e ainda é prejudicial à saúde humana.


O documentário conta com entrevistas e comentários de nomes de peso como Noam Chomsky, Milton Friedman, Mark Moody-Stuart (ex-dirigente mundial da Shell) e Vandana Shiva. A corporação se encaixa muito bem na temática meio ambiente, pois apresenta um dos grandes causadores de problemas ambientais no mundo: a exploração desmedida de recursos naturais e o modelo de produção desumanizado. O filme é um retrato da situação atual deste planeta que grita por mudanças antes que seja tarde demais.

Ficha técnica:
Título Original: The corporation
País de origem: Canadá
Diretor: Mark Achbar
Ano: 2003
Roteirista: Joel Bakan

sábado, 18 de junho de 2011

Amazônia adentro

Foto qualquer encontrada pelo grande oráculo da internet
Por alguma razão, esta temática Meio Ambiente está dominada pelo gênero documentário. Os filmes a serem exibidos na noite de terça-feira (dia 21, às 20:00) no SESC não fogem à regra: são documentários. Mais que isso, são documentários bastante peculiares.

Em Cidadão Jatobá, de Maria Luiza Aboim (1987) e com 14 minutos de duração, a câmera acompanha o feitio de uma canoa. Índios do Parque Nacional do Xingu escolhem o jatobá, recortam a casca da árvore (que continua em pé e provavelmente saberá recriar sua pele), moldam a casca com a ajuda da brasa e dos mais velhos e por fim iniciam a canoa na água. Esses índios falam a sua língua, se vestem de urucum e praticam seus costumes e rituais. Esses índios não desperdiçam recursos ou esforços na construção de sua canoa. A peculiaridade deste documentário, contudo, não está no processo filmado, mas na montagem do objeto. O narrador de Cidadão Jatobá é Marcos Terena, do Alto Xingu. Esse narrador não narra a elaboração da canoa, nem mesmo se refere aos índios empenhados nela. Enquanto índio tutelado pela FUNAI, Marcos Terena fala do seu processo kafkiano de emancipação.

No rio das Amazonas é de Ricardo Dias (1995) e tem 76 minutos de duração. Não aparecem amazonas, as guerreiras. Aparece o rio Amazonas. Ricardo Dias e Paulo Vanzolini (compositor e zoólogo)  fazem uma viagem de barco de 40 dias, saindo de Belém com destino a Manaus. A peculiaridade deste documentário é a horizontalidade: não existe hierarquia de vozes: as imagens, os ribeirinhos, o especialista (Vanzolini), o narrador em primeira pessoa (Ricardo Dias) e os recursos didáticos têm a mesma força.

No rio das Amazonas é um documentário bem equilibrado sobre a fauna, flora e ocupação humana nas margens do rio Amazonas. Não espanta que quando os tripulantes aportam numa cidade qualquer, acham tudo feio, sujo e barulhento. Somente os 'mateiros,' que vivem em comunidades relativamente pequenas (uma família, por exemplo), é que se integram à Natureza. Os urbanos vieram em massa (a primeira explosão demográfica se deu nos anos 80) e reproduziram o velho modelo da exploração predatória, do desperdício e da poluição.

Muito mais do que um estudo focado num assunto, estes dois documentários são fruto de experiências particulares. Walter Benjamin faz uma distinção interessante entre erfahren (= saber, experienciar) e erleben (= vivenciar, experienciar). Documentários como, por exemplo, Ônibus 174, manipulam saberes adquiridos pela via cognitiva (erfahren): há pesquisa, entrevista, investigação por trás deste tipo de documentário. Os dois documentários em questão aqui manipulam saberes adquiridos do contato: são testemunhos de uma vivência (erleben). E Leben é vida em alemão. Viva a Amazônia!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma verdade inconveniente


O filme Uma verdade inconveniente, dirigido por Davis Guggenheim, é uma criação visual impactante. O filme foi elaborado através das pesquisas e palestras de Al Gore ao redor do mundo. Ele esclarece a problemática ambiental, as causas e consequências do aquecimento global de forma realista e alarmante.

Al Gore utiliza meios audiovisuais (como dados cientííicos e imagens de fenômenos naturais), para argumentar que a temperatura da Terra está aumentando e que a causa disso são as próprias ações dos homens. Além de dar uma explicação tradicional sobre o aquecimento global, Al Gore utiliza uma animação inovadora.

Teoricamente, o aquecimento global é causado pela concentração de gases na atmosfera, os chamados gases de efeito estufa (dióxido de carbono, metano e óxido nitroso), que por sua vez causam o aumento da temperatura terrestre. A queima de combustíveis fósseis e o desmatamento tem sido a principal fonte desses gases poluentes. 
Ao falar sobre as mudanças climáticas, primeiramente Al Gore discute a ignorância das pessoas com relação a esse fenômeno. Ele diz que, por a Terra ser extensa, as pessoas acabam acreditando que é impossível causar um impacto nocivo no ambiente terrestre. Essa temática nos alerta para os desastres ambientais cujos grandes causadores somos nós mesmos. Exercemos atividades que diretamente ou indiretamente interferem nesses fenômenos (enchentes, furacões, degelo etc.) que estão acontecendo.

Há quem pense o contrário quanto a essa parcela de culpa humana. Os chamados “céticos do aquecimento global”, citados por Al Gore, são pessoas que acreditam que a Terra está aquecendo devido a causas naturais. Para eles, tais mudanças climáticas ocorrem desde a origem da Terra, sob a ação ou não do Homem, por exemplo, as Eras Glaciais. Contudo, essas mudanças climáticas, explica Al Gore, ocorreram com variações naturais nos níveis de dióxido de carbono menores do que as que notamos hoje.

O filme nos alerta sobre as principais causas e consequências do aquecimento global, mostra o quão agressivos somos com o meio ambiente. E ao mesmo tempo, demonstra que existem soluções para minimizar esses impactos que estão acontecendo. Assim, Al Gore finaliza sua reflexão, cabendo a nós reverter tudo isso através de nossas ações.

“Cada um de nós é uma causa de aquecimento global; mas cada um de nós pode se tornar parte da solução - em nossas decisões sobre o produto que compramos a eletricidade que usamos o carro que dirigimos o nosso estilo de vida. Podemos até fazer opções que reduzam a zero as nossas emissões de carbono.” Al Gore
 

  
Ficha-técnica:
Título original: An inconvenient truth
Gênero: Documentário 
Duração: 94 min
Direção: Davis Guggenheim
Elenco: Al Gore
Ano de lançamento: 2006
Origem: EUA


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Um outro modo de ver as coisas


Esta semana iniciamos nossa temática Meio Ambiente, em referência ao dia 5 de junho, Dia do Meio Ambiente. Durante o mês de junho e na primeira sexta-feira de julho, vamos exibir filmes que tratam dessa questão tão falada e pouco praticada em nossa sociedade.

Nesta sexta-feira (10/06) vamos compartilhar com os nossos cineclubistas três filmes que abordam a temática por diferentes aspectos que se complementam. O primeiro filme é Um Outro Modo de Ver as Coisas, escrito por Daisaku Ikeda e dirigido por Cory Taylor, com o apoio da Soka Gakkai Internacional (SGI).
O filme trata de uma viagem do então jovem historiador britânico Arnold Toynbee aos campos de batalha entre a Grécia e a Turquia, nos idos de 1920. A postura de Toynbee em "ouvir o outro lado", mostrando as crueldades cometidas pelos gregos (apoiados pelos norte-americanos - sempre eles!) contra civis turcos, não agradou a sociedade europeia da época, cúmplice das atrocidades da guerra greco-turca. O texto de Ikeda relata o depoimento que o próprio Toynbee fez quando da ocasião de um diálogo que realizaram, que resultou num livro intitulado Escolha a Vida.
O segundo filme é Uma Revolução Silenciosa, também dirigido por Cory Taylor, com o apoio da SGI. No filme são contadas experiências exitosas com relação aos grandes problemas ambientais que o planeta enfrenta. Trata da força que iniciativas individuais podem ter quando conseguem romper a barreira do que se acreditava impossível. Sem apoio de seus governos, essas pessoas iniciam movimentos que promovem uma verdadeira revolução silenciosa. Para os mais céticos, o filme apresenta uma proposta esperançosa de mudar o mundo para que ele fique bom para todos que o habitam. Coleta de água da chuva, método seguro de destruição de poluentes orgânicos persistentes (POP's) e o Movimento Cinturão Verde, são alguns do exemplos que o filme nos traz.
O terceiro filme é o consagrado Ilhas das Flores, de Jorge Furtado. Com relação a este filme não há muito o que dizer, pois é bem conhecido do público brasileiro. De forma brilhantemente didática, Jorge Furtado nos apresenta o cotidiano de uma comunidade real com cenas fortíssimas sobre a degradação da condição humana promovida pelo próprio humano. O curta-metragem consegue ser divertido, educativo e altamente esclarecedor das desigualdades sociais promovidas pelo capitalismo.
Assim será nossa sessão do cineclube DeLírio desta semana. Apareça e apresente a sua estratégia de ação!

Créditos:
Um Outro Modo de Ver as Coisas - Escrito por Daisaku Ikeda, direção Cory Taylor, EUA, 21 min. 2004.
Ganhador do Golden Reel Award de Melhor curta-metragem no 3º Festival Internacional de Cinema de Tiburon.
Uma Revolução Silenciosa - Direção Cory Taylor, EUA, 30 min. 2002.
Ilha das Flores - De Jorge Furtado, Brasil, 13 min. 1989.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Anos Dourados



A temática especial sobre a obra de Chico Buarque de Holanda exibiu até agora três DVDs: Meu caro amigo, À flor da pele e Vai passar. Cada exibição apresentou assuntos diferenciados: amizade, alma feminina, amor, ditadura militar, censura entre outros.

Na sequência, o quarto DVD intitulado Anos Dourados tem como cenário o Jardim Botânico. Lugar onde Chico desbrava a natureza e relembra as mais belas histórias, principalmente sobre sua parceria com o renomado músico Tom Jobim. O local das gravações desse filme não foi escolhido ao acaso, pois Tom era um verdadeiro apreciador da natureza. Ele se interessava desde pequeno pelas peculiaridades brasileiras e, sobretudo, pela etimologia da fauna e flora.

A influência de Tom Jobim sobre a música de Chico Buarque foi marcada com a canção Chega de Saudade. Foi daí que Chico começou a se interessar de verdade em fazer música e a entrar no mundo da bossa nova.

Chico Buarque considera Tom mais do que um músico, um “maestro soberano”, como diz na canção Paratodos, escrita em homenagem ao seu grande amigo:

“O meu pai era paulista/ Meu avô pernambucano/ O meu bisavô mineiro/ Meu tataravô baiano/ Meu maestro soberano/ foi Antônio Brasileiro.” (Paratodos, 1993)

Ambos mantinham uma parceria e amizade inigualável. Tom Jobim entrou como parceiro a partir da música Retrato em Branco e Preto. Ele deu a parte instrumental para que Chico colocasse a letra e assim continuou a parceria com outras músicas como: Pois é, Sabiá, Anos Dourados, Eu te amo, Olha Maria etc. Houve outras parcerias, como por exemplo, com o músico Edu Lobo. Os dois compuseram em especial a música Choro Bandido em homenagem ao Tom. Um trecho nos diz:

“Fez das tripas a primeira lira/ que animou todos os sons/ E daí nasceram as baladas/ E os arroubos de bandidos como eu/ Cantando assim:/ Você nasceu pra mim.” (Choro Bandido, 1985)

Esta canção ressalta a consideração que Chico tinha e ainda tem com relação a Tom. Ele comenta a importante influência que Tom Jobim teve sobre a bossa nova brasileira.

Entre músicas e depoimentos, aparecem também conversas entre os dois amigos falando de vários assuntos, como: o rock and roll; a crítica sobre generais e artistas; o  folclore e a Lua Cris (citada na música Imagina) e a etimologia das palavras. Chico fala também do surgimento da Bossa Nova, do cinema e do teatro que impulsionaram o sentimento de orgulho no brasileiro.

Mesmo com mais de cinquenta anos de criação, a bossa nova ainda se faz presente no mundo inteiro e é regravada a todo o momento. A música de Tom exerce sobre outros compositores como uma matriz da música brasileira moderna. Até hoje, músicas consagradas como: Garota de Ipanema, Águas de Março, A Felicidade, Retrato em Branco e Preto, Chega de saudade, Anos Dourados são regravadas por músicos admiradores de Tom. Por exemplo, a cantora Ana Carolina que regravou a canção Retrato em Branco e Preto.

Segundo Chico, Tom Jobim foi um grande expoente da música brasileira. E isso fica bem claro ao assistirmos essa magnífica série retrospectiva, na qual nos deparamos com músicos geniais de grande sucesso, porém de uma humildade gigantesca.

Título Original: Chico Buarque – Anos Dourados - Brasil 2005
Com: Chico Buarque, Tom Jobim, Milton Nascimento, Paula Morelenbaum, Edu Lobo e Caetano Veloso.
Direção: Roberto de Oliveira
Músicas deste DVD:   
1- Choro Bandido (Chico Buarque/Tom Jobim)
2- Eu te amo (Chico Buarque/Tom Jobim/Paula Morelenbaum)
3- Olha Maria (Tom Jobim/Milton Nascimento)
4- Imagina (Chico Buarque/Tom Jobim/Paula Morelenbaum)
5- Sem Você (Chico Buarque / Tom Jobim)
6- Chega de Saudade (Chico Buarque/Edu Lobo)
7- Anos Dourados (Tom Jobim / Chico Buarque)
8- Anos Dourados (Chico Buarque/Caetano Veloso)
9- Lígia (Chico Buarque) 
10-Piano na Mangueira (Chico Buarque/Tom Jobim)                                                                  
11-Sem Compromisso (Chico Buarque/Tom Jobim)                                                                            
12-A felicidade (Chico Buarque/Tom Jobim/Milton Nascimento)                                                 
13-Se todos fossem iguais a Você (Chico Buarque/Tom Jobim/Milton Nascimento)



sexta-feira, 20 de maio de 2011

Vai passar

Observando que nossos alunos

Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais,              
 (Vai passar)

decidimos exibir (em doses homeopáticas) a coletânea de DVDs sobre o percurso de Chico Buarque de Holanda. Neste terceiro disco, nos é apresentado um artista que soube driblar a ditadura.

O Brasil tem uma experiência democrática (sistema político caracterizado pelo voto popular) relativamente recente. As primeiras eleições a presidente foram em 1990, quando Fernando Collor de Mello assumiu. Todavia, não é desse tempo que Chico nos fala. O letrista refere-se ao tempo da ditadura militar, que foi iniciada em 1964, com o que os militares chamam de “Revolução”. Chico lembra do AI5 (um Decreto Lei que temporariamente suspendeu o modo convencional de julgar qualquer contravenção. A polícia se viu com o poder de punir infratores sem a intervenção do Poder Judiciário.):

Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações.                  
  (Vai passar)

Chico Buarque de Holanda não foi torturado fisicamente pela polícia que tinha poder supremo durante o AI5, mas desafiado pela censura a adaptar sua arte ao que a ditadura podia perceber:

Entre dados e coronéis
Entre parangolés e patrões
O malandro anda assim de viés                       
   (A volta do malandro)

Assim, fez músicas de protesto engenhosas, como por exemplo Cálice. Os censuradores leram ‘cálice’, mas o público entusiasmado ouviu ‘cale-se, pai’. Num tempo em que o Estado tinha cuidadosamente construído a auto-imagem do pai , Chico canta, em parceria com Milton Nascimento:

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado, eu permaneço atento
Na arquibancada, para a qualquer momento
Ver emergir o monstro da Lagoa         
   (Cálice)

O documentário Vai passar foi rodado predominantemente em Roma, onde Chico passou um ano no auge do AI5. Não chegavam notícias dos companheiros sumidos, voltar com mulher e criança pequena não era uma opção, mas também não se podia confiar inteiramente nos brasileiros que passavam por Roma (porque podiam ser agentes disfarçados):

Mas há milhões desses seres que se disfarçam tão bem
Que ninguém pergunta de onde essa gente vem
São jardineiros, guardas noturnos, casais
São passageiros, bombeiros e babás
Já nem se lembram que existe um brejo da cruz
Que eram crianças e que comiam luz          
     (Brejo da Cruz)

Depois de aproximadamente um ano em Roma, Chico Buarque voltou ao Brasil. Voltou porque lá não tinha o mesmo reconhecimento que tinha aqui, voltou porque lá era visto como um exótico, voltou porque seu lugar e seus amigos o chamaram de volta. Voltou fazendo barulho:

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão
              
  (Apesar de você)

Este documentário não se presta apenas a mostrar o percurso de um artista individual que sobreviveu à ditadura, mas a apresentar os lugares por onde andou, as línguas que aprendeu, os contatos que fez. Além disso, descortina um pouco o processo de criação de canções quando há censuradores vigiando por cima do ombro. Contudo, não é um documentário preso no passado. Chico Buarque critica a classe média atual que insiste em votar em quem promete resolver o “problema da segurança” com a força policial. Quem viveu sob um regime militar sabe que dar poder absoluto à polícia significa abdicar da segurança, justamente porque o poder daqueles que deveriam garantir a segurança se torna arbitrário.

Título Original: Chico Buarque - Vai Passar - Brasil 2005
Com: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Mpb 4, Sergio Bardotti, Tom Tobim
Diretor: Roberto de Oliveira
Músicas deste DVD:
1- Vai Passar (Francis Hime / Chico Buarque)
2- Jorge Maravilha (Julinho da Adelaide)
3- Tanto Mar (Chico Buarque)
4- Como Se Fosse A Primavera (Pablo Milanês / Nicolas Guillén versão: Chico Buarque)
5- Risotto Nero (Chico Buarque / Sergio Bardotti)
6- Vai Levando (Caetano Veloso/ Chico Buarque)
7- Sabiá (Tom Jobim / Chico Buarque)
8- Cálice (Gilberto Gil / Chico Buarque)
9- Pelas Tabelas (Chico Buarque)
10- Brejo da Cruz (Chico Buarque)

domingo, 15 de maio de 2011

Sensibilidade à flor da pele


O segundo DVD da série sobre a obra de Chico Buarque, intitulado À Flor da Pele, aborda a temática feminina nas canções compostas por Chico. O cenário é perfeito: Paris. A partir daí já percebemos a presença do feminino. Chico faz uma relação direta entre a cidade e a mulher, pois foi em Paris que ele teve os primeiros contatos com a mulher, principalmente por causa dos filmes franceses que foram os primeiros a apresentarem mulheres nuas. “Há sempre um grande mistério para mim na alma feminina” diz Chico. A partir dessa definição, Chico fala sobre a temática feminina, apresentando suas principais canções sobre o assunto.

Nos anos dourados da música brasileira, havia o costume de se escrever canções com o Eu- lírico feminino. A primeira canção desse tipo escrita por Chico foi Com açúcar, com afeto, atendendo a um pedido da cantora Nara Leão, que pediu a Chico uma música que falasse daquelas mulheres que buscavam servir a seus maridos. Nesse período, eram comuns as canções que exaltavam as qualidades domésticas das mulheres. Eram músicas que apresentavam uma mulher submissa, que cuidava da casa e que implorava por um pouco de atenção.

A partir do final da década de 60, com a revolução feminina, houve uma mudança de foco nos canções com Eu- lírico feminino. Aparecia nas músicas uma mulher mais livre, independente, que não é mais reprimida pelo marido. A primeira música de Chico a mostrar esse novo posicionamento da mulher na sociedade é Olhos nos olhos, originalmente composta para ser gravada por Maria Bethânia.

À flor da pele é a sensibilidade, é a poesia, é a genialidade de Chico Buarque em 14 canções que tratam da temática feminina, e é apenas uma pitada do que está por vir ao longo da temática deste mês, dedicada à obra de Chico.

Direção: Roberto de Oliveira
Brasil, 96 min.
Produção Artística: Vinícius França
Direção de Fotografia: João Wainer
Cinegrafista: Juarez Pavelack
Pesquisa e Texto: Ricardo Arnt
Produção: Camila Villas-Boas, Jorge Saad Jafer
Assistente de Produção: André Arraes
Edição: André Wainer
Trilhas Musicais: Luiz Cláudio Ramos
Músicas:
Tatuagem (Chico Buarque/ Caetano Veloso), Esse cara (Chico Buarque/ Caetano Veloso), Sem fantasia (Chico Buarque/ Caetano Veloso), Cotidiano (Chico Buarque), O que será (à flor da pele) (Chico Buarque/ Milton Nascimento), Com açúcar, com afeto (Chico Buarque/ Nara Leão), Feijoada completa (Chico Buarque/ Francis Hime), Teresinha (Chico Buarque/ Francis Hime), Mulheres de Atenas (Chico Buarque/ Francis Hime), Olhos nos olhos (Chico Buarque/ Francis Hime), Morena dos olhos d’água (Chico Buarque/ Leo Jaime), As minhas meninas (Chico Buarque), As atrizes (Chico Buarque), Joana Francesa (Chico Buarque).
Músicos:
LUIZ CLÁUDIO RAMOS
CARLOS BALA
JORGE HELDER
JOÃO REBOUÇAS
DON CHACAL
GABRIEL GROSSI
FRANKLIN DA FLAUTA
MARCELO BERNARDES
PASCHOAL PERROTA
NOVELLI
PETER DAULSBERG
CÉSAR CAMARGO MARIANO
WILSON DAS NEVES
VICTOR BIGLIONE
CHICO BATERA
MACAÉ
ZECA ASSUMPÇÃO
PAULO JOBIM
DANIEL JOBIM
DANILO CAYMMI
MARCOS AMA
SÉRGIO CARVALHO
MÁRCIO EYMARD MALARD
CONJUNTO ATLÂNTICO
PAULO BRAGA
LUÍS MAIA
HELIO BELMIRO