quinta-feira, 8 de março de 2012

Acompanhar até a morte


Os dois outros filmes da temática Morte - Dead Man e A Partida - contam estórias de rituais em que se acompanha  alguém para a morte. Em Dead Man, o personagem de Johnny Depp, William Blake, é acompanhado por Nobody até a morte segundo os rituais do indígena. Já no filme A Partida, o personagem principal assume, como profissão, o ritual de acompanhar a família sobrevivente ao se despedir do morto. Em Hanami, de Doris Dörrie, também temos a imagem do acompanhamento até a morte, mas o filme alemão aborda o tema de maneira mais complexa.

Rudi e Trudi são um casal na terceira idade. Vivem num vilarejo na Bavária, sul da Alemanha, rodeados por montanhas com picos nevados. Para não dizer que as pessoas desse lugar são conservadoras, diremos que são "conscientes de sua tradição". Tanto, que o ideal para Rudi seria não mudar jamais, manter a rotina certa e segura, seguir o caminho traçado. O diagnóstico de que Rudi tem apenas poucos meses de vida não é dado a ele, mas à esposa. Em vez de preparar o marido para a iminência da morte, ela organiza uma visita a Berlim, para rever os filhos. Ela toma para si a tarefa de acompanhar o marido nos seus últimos momentos de vida e unir a família dispersa em torno do homem ao qual dedicou sua vida.

Saindo da paisagem bucólica do campo, a metrópole sufoca o casal com seu constante movimento, prédios, pixações, falta de tempo, casas pequenas, sotaque estranho. Não reconhecem os filhos, seus modos de vida, não entendem suas escolhas, não percebem que as comidinhas regionais trazidas na bagagem não agradam mais, sentem-se deslocados. Partem dali para a praia, mais ao norte. Passeiam pela praia, paisagem incomum para o casal alpino e decidem voltar para casa. Na manhã seguinte, a esposa amanhece morta.

Todos os filhos, inclusive o preferido (que mora no Japão) reúnem-se ali para se despedir da mãe. Rudi volta para a casa grande e vazia. Começa então a sua grande viagem de tentar entender a esposa morta. Finalmente ele se interessa pelos desejos da mulher de visitar o filho no Japão, ver o Monte Fuji, aprender butô. Leva os pertences da companheira falecida para o Japão e metaforicamente acompanha a esposa na descoberta desse mundo exótico.

Em Tóquio, o filho essencialmente trabalha. A paisagem de concreto e neon é mais opressiva que a de Berlim. A casa é menor, a língua um enigma completo. Largado à própria sorte, Rudi estranha tudo. Através de outra linguagem, consegue estabelecer contato com uma dançarina de butô. Através dessa dança que ele custa a assimilar, que lhe causava incômodo quando transformava a esposa, Rudi acompanha a mulher e arranja uma companheira no país desconhecido.

O filme abre com a declaração de Trudi que somente iria ao Japão se fosse acompanhada do marido. Por vias tortas, é isso que acontece: mesmo separados fisicamente, ela lhe faz companhia. E ao acompanhá-lo nessa viagem, abre ao marido uma nova forma de ver o mundo. Assim como vida e morte fecham um ciclo, hanami, a festa das cerejeiras em flor, ápice da primavera nipônica, encerra a estória triste, mas bela de pessoas que caminham juntas enquanto têm tempo.

É possível identificar no filme alguns caminhos e lugares concretos e metafóricos. Do vilarejo em que os destinos das pessoas costumam ser predestinados (o filho do padeiro será padeiro, o bastardo pobre não vai se casar com a filha do fazendeiro) saem os filhos. Seus caminhos os levam para cidades grandes e modernas, onde descobrem um mundo novo e uma vasta paleta de possibilidades de como conduzir suas vidas. Segundo a tradição, o lugar de Trudi é ao lado do marido, mas ela se encanta pelo lugar escolhido pelo filho preferido. O marido só percorre o caminho ao país desconhecido quando da esposa restam apenas memórias. Os desejos da esposa o acompanham a um lugar em que convivem tradição e tecnologia.


Título Original: Kirschblüten - Hanami.
Origem: 
Alemanha / França, 2008.
Direção: 
Doris Dörrie.
Roteiro: 
Doris Dörrie.
Produção: 
Harald Kugler e Molly Von Furstenberg.
Fotografia: 
Hanno Lentz.
Edição: 
Frank C. Muller e Inez Regnier.
Música: 
Claus Bantzer.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A partida



Cada particularidade da morte nos afeta. Seja o motivo ou momento inesperado, todo falecimento tem um ritual de passagem no qual seguimos dependendo dos costumes locais e principalmente da crença religiosa. Todos nós possuímos uma herança cultural que define a nossa visão da morte. As nossas interpretações atuais sobre a morte constituem parte da herança que as gerações anteriores, as antigas culturas, nos deixaram. Seja qual for o rito de passagem, há surpresa e tristeza em toda morte.

Com um roteiro simples e sem rodeios, o filme A partida mostra o cotidiano de um violoncelista que perde seu emprego tão sonhado após a Orquestra na qual ele trabalhava ser desfeita. Ele volta à cidade natal para morar na casa da mãe e de um pai que mal conheceu e acaba conseguindo um emprego pouco respeitado: torna-se um “nokanshi”, um mestre em limpar, maquiar e vestir cadáveres. Essa função advém de uma antiga tradição japonesa de deixar o morto limpo, belo e bem tratado para seu rito de passagem, função antes exercida pelas famílias dos mortos.

Interessante a forma como as outras personagens veem essa profissão. Para elas, trata-se de uma profissão vergonhosa, indigna e até mesmo sórdida, o que implica uma visão negativa por parte destes em relação ao contato entre mortos e vivos, bem como uma negação de uma antiga tradição cultural.

Para Daigo, o manuseio de cadáveres tornou a morte algo material, mas, conforme ele foi se adaptando à profissão, ele começou a perceber o sentido e a importância de todo ritual. A morte deixou de ser vista como algo plenamente material, e passou a ter beleza após todo cuidado que ele tinha com o corpo do falecido para o rito de passagem. 

Falar sobre a morte provoca certo desconforto, pois damos de cara com a finitude, o inevitável, a certeza de que um dia a vida chega ao fim, porém, no filme. além de mostrar um panorama interessante sobre a morte como um ato cultural japonês, cheio de beleza, nos fala também sobre a vida, as mudanças e o passado dos personagens.


FICHA-TÉCNICA:

Título Original: Okuribito
Lançamento: 2008
País de origem: Japão
Direção: Yojiro Takita
Atores: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki.
Duração: 130 min
Gênero: Drama
 
Premiações:
OSCAR
Melhor Filme Estrangeiro

FESTIVAL DE MONTREAL
Grand Prix des Amériques

FESTIVAL DE PALM SPRINGS
Melhor Filme - Júri Popular

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Homem morto




O cineclube deLírio está de volta. Iniciamos nossas atividades este ano com nossa primeira temática: Morte. Abrindo os trabalhos nesta nova temática, apresentamos Dead Man. Dirigido por Jim Jarmusch, Dead man é um filme que foge aos padrões hollywoodianos, mesmo que à primeira vista se trate de um típico Western. Este mérito pode ser atribuído ao diretor que tem fama de ser independente e ousado.

O filme se passa na segunda metade do século XIX e conta a história de Willian Blake, que deixa sua cidade natal (Cleveland, onde recentemente tinha perdido seus pais, noiva e se desfeito de todos os seus bens) e parte em uma jornada em direção à cidade de Machine, situada no fim de uma estrada de ferro. Ele segue para esta cidade em busca de um emprego que lhe havia sido prometido em uma carta. Logo ele descobre, sob a mira de uma arma, que o emprego agora era de outra pessoa.

Após esta primeira desventura, Blake conhece uma linda mulher e com ela passa uma noite, porém novamente as coisas não saem do jeito esperado e ele deixa o quarto da jovem com uma bala alojada no corpo e dois cadáveres no aposento. A partir daí começa a jornada de Blake em direção à sepultura. Não só pelo fato de estar ferido, mas também porque agora é procurado pelo assassinato de uma mulher e do filho do dono da fábrica de onde ele havia sido expulso.

Em meio a estas desventuras, Blake é encontrado por um nativo-americano que tenta ajudá-lo, mas não consegue, pois a bala está muito próxima do coração. “Você matou o homem branco que te matou?” pergunta “Nobody”, já percebendo a situação de morte certa. Situação que só Blake parece não perceber: “não estou morto!” diz Blake. Juntos eles tentam fugir das inúmeras pessoas que agora procuram matar Blake (em busca da recompensa).

Dead man é um filme que definitivamente fala de morte, só que não a vemos no filme como estamos acostumados a ver em nossa sociedade. Apesar de sabermos que um dia o fim chegará para todos, sempre nos surpreendemos com sua chegada, gerando sentimento de perda, dor e tristeza. Esses sentimentos não aparecem em Dead man. Na película, a morte aparece como algo corriqueiro e sem valor.

O filme se passa na época da fundação da nação americana e nele também é abordada a questão da relação entre as culturas. Percebemos o estranhamento entre um cidadão “civilizado” e um “selvagem” através da figura dos personagens de Blake e Nobody. A relação entre os dois personagens é bem interessante, pois percebemos o grande choque entre as culturas. A morte aqui aparece em forma de destruição. Por diversas vezes vemos no filme cenas de aldeias indígenas destruídas pelo homem branco “civilizado”, que quase exterminou os povos nativos.

A película lembra as tragédias clássicas. Os personagens não têm controle sobre suas vidas, são guiados pelo “destino”. Ainda dentro do trem Blake é avisado que caminha para a sepultura e Nobody diz (confundindo o poeta com o moribundo) que os versos de Blake seriam escritos com sangue. Tudo dá errado para o personagem e ninguém escapa do fim trágico: a morte.

Título original: Dead man
Diretor: Jim Jarmusch
Duração: 121 min
Ano: 1995

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sonhos sonhos são



Réquiem é uma espécie de oração que tradicionalmente foi destinada a funerais. Quem não lembra do famoso réquiem produzido por Mozart que culminou com a sua própria morte? Podemos entender o réquiem também como um poema mórbido.

No caso do filme em questão, trata-se de um réquiem para um sonho. Quantos sonhos nossos são sonhos defuntos? Vontades mortas antes mesmo de terem uma oportunidade de realização? No filme, as personagens esperneiam em busca de seus sonhos. A cada nova tentativa, mais próxima fica a beira do abismo.

Podemos ver Réquiem - Por um sonho com muitos olhares diferentes: seja pela questão do uso de substâncias psicoativas, pelas ilusões oriundas dos programas de auditório, pelas promessas de amor eterno...

O drama se dá na incapacidade de saber a hora de parar. Seria incapacidade ou não temos realmente o controle que tanto desejamos (alguns acreditam ter!) sobre o rumo de nossas vidas? Como definir os limites do prazer e da loucura?

A vida continua um grande mistério. O filme que encerra a temática Obsessão e fecha com chave de ouro a atuação do Cineclube DeLírio este ano. Imperdível para quem acredita que não está pronto e que muitas mudanças estão para acontecer em suas vidas.

Apareça!


Créditos:
Título original: Requiem for a Dream
Lançamento: 2000 (EUA)
Direção: Darren Aronofsky
Atores: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans.
Duração: 102 min
Gênero: Drama

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Breu

Não teve sessão hoje porque o motor do gerador pifou de vez. Os alunos que ocupam a Reitoria estão no escuro. Quem entrar em crise de abstinência por falta de filmes legais, pode ir no SESC, onde está acontecendo a 6. Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. Veja a programação aqui.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Por que não teve sessão

Ontem de manhã a Reitoria foi ocupada pelos estudantes. Logo em seguida, o fornecimento de energia do prédio foi cortado. Os professores das engenharias conseguiram fazer o gerador funcionar, mas os alunos tiveram que poupar energia. Como usamos uma tomada da Reitoria para projetar os filmes do cineclube na escadaria, decidimos suspender a sessão de quarta-feira (05 de outubro).

Voltaremos assim que houver condições.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Cinelube na greve

Salve, pessoas!

Estamos em greve porque simplesmente não aguentamos mais... Para a realização de nossa atividade de extensão, por exemplo, não há uma sala de vídeo sequer em todo o campus. É um problema pequeno, mas dificulta muito o nosso trabalho. O cineclube aconteceu até hoje porque doamos nossas caixas de som e ficamos mendigando salas pelos corredores. Ficamos colando papel madeira nas paredes para evitar a luz externa que atrapalha a exibição. E ainda carregamos o datashow, que fica sob nossa responsabilidade e que teremos de responder a processos administrativos caso seja roubado ou danificado.

Nos parece que, segundo a (não) atenção dada ao cineclube pela universidade, essas atividades não são importantes para a formação dos estudantes. O que contraria toda uma concepção do uso do cinema na qualificação intelectual de seus expectadores, desenvolvida e praticada em todo o planeta.

Nossa decisão durante a greve é a de exibir filmes que tratem de temáticas como democracia, liberdade, revolução, movimentos sociais etc.

Vamos exibir filmes todos os dias na escada da Reitoria. Começaremos às 19:01, sem falta.

Apareçam para engrossar o caldo dos grevistas e ajudar na luta por uma universidade séria, transparente e compromissada com a nossa sociedade.

Saudações libertárias!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A obsessiva fã nº 1



Uma mistura de tensão e angústia constrói gradativamente o suspense contido no filme Misery. Estamos agora diante de uma obsessão inteiramente sem limites, que se desenvolve  quando a pessoa passa a conviver com uma ideia que ela acredita ser a certa e perfeita, ainda que seja um absurdo para quem está ao redor.

No filme Misery, temos a personagem muito bem representada por tal obsessão: Annie Wilkes (Kathy Bates) uma enfermeira sozinha, isolada da cidade, temperamental e consequentemente fã obcecada de Misery. Ela está decidida a fazer dos livros sua vida, troca sua realidade pela ficção dos livros que tanto admira. Essa relação que ela tem com as obras do seu escritor favorito Paul Sheldon (James Caan) gera um conflito a partir do momento em que ela o acolhe em sua casa após ele ter sofrido um acidente de carro. Ela fica disposta a ajudá-lo até descobrir que ele matou a sua personagem preferida da série que ainda será publicada. Annie se revela como uma fã doentia, capaz de fazer de tudo para ter sua personagem de volta - nem que isso custe a vida dela ou do escritor.

A temática que o filme propõe nos faz refletir sobre os (não) limites que um fã tem ao admirar os seus ídolos, que na maioria das vezes nem sabem da sua existência. Essa fascinação por algo ou alguém tende a ser perfeita para os olhos do obcecado, como é para Annie. Ela envolvia a personagem Misery na sua vida, acompanhava cada livro como se fosse real e não só o via como uma ficção.

Essa paixão desmedida partiu da ideia do livro Misery, de Stephen King, e como já era de se esperar, o roteiro é cheio de suspense e terror.

FICHA TÉCNICA:

Título original: Misery
País de origem: Estados Unidos
Ano: 1990
Duração: 107 min
Direção: Rob Reiner
Elenco: James Caan, Kathy Bates, Frances Sternhagen,Richard Fansworth.

Premiações:

Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood, EUA 

Oscar de Melhor Atriz (Kathy Bates)

Prêmios Globo de Ouro, EUA
Prêmio de Melhor Atriz em um Drama (Kathy Bates)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Cheiro vem do ralo




Baseado no livro homônimo escrito por Lourenço Mutarelli, O Cheiro do Ralo é um filme no mínimo curioso. Nele conhecemos Lourenço, um sujeito egocêntrico, sem escrúpulos que se diverte com a desgraça alheia, cujo único objetivo é “comprar a bunda” da garçonete de uma lanchonete.
Obsessão é o nome do meio de Lourenço. Ele gosta de explorar as pessoas que vão à sua loja de antiguidades para vender objetos usados, dando sempre ofertas baixas pelos objetos e sempre se aproveitando da necessidade das pessoas. Mas sem dúvida suas maiores obsessões são o ralo do banheirinho de seu escritório e a ‘bunda’ da garçonete da lanchonete que ele frequenta. Para todas as pessoas que entram em seu escritório, ele faz questão de explicar que o odor que eles sentem vem do ralo do banheiro, pois seu maior medo é que todos pensem que o cheiro vem dele. Todos os dias Lourenço vai a uma lanchonete comer uma comida que sempre lhe faz mal só para admirar os atributos físicos da moça de nome impronunciável. “Eu poderia passar uma semana inteira só olhando para essa bunda”, usando as palavras de Lourenço, percebemos um homem obcecado.
A estética do filme é bem interessante, a fotografia nos passa a impressão de sujeira, é possível sentir um desconforto gerado pelo cenário. Em todos os ambientes que Lourenço frequenta (casa, trabalho, lanchonete) percebemos lugares feios e desarrumados, com imagens amareladas, o que nos leva a imaginar o cheiro que esses lugares possuem.
Se comparado com o livro, o filme deixa a desejar no que diz respeito à fidelidade à obra original. A cena final do filme não acontece no livro e também vale citar alguns clichês presentes na película que acabam tirando o brilho do trabalho. Mas ainda assim vale a pena assistir este filme que nos mostra a questão da obsessão de uma forma suave e até cômica.
FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO: Heitor Dhalia
ANO: 2007
ELENCO: Selton Mello, Paula Braun, Martha Meola, Sílvia Lourenço.
DURAÇÃO: 112 MIN.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Qual é a sua obsessão?

Silêncio, casa, fama, família, dinheiro, sexo, ordem, rotina, higiene, beleza, corpo, prazer, perfume, sapatos, doença, comida, carros, drogas, companhia, filmes, cores, casamento, solidão, poder, trabalho, morte, barulho, livros, bonecas, homens, mulheres. Quais são as suas obsessões?

Dolls, de Takeshi Kitano, recorre ao Teatro Bunraku para contar três histórias que, unificadas pelo “casal-boneco” Matsumoto e Sawako, tentam mostrar ao espectador, além das obsessões das personagens, uma bela, sensível e silenciosa crítica à sociedade japonesa contemporânea. Através do recurso do coro da tragédia clássica grega, somos apresentados a homens obcecados pelo poder, por dinheiro e por suas culpas; e mulheres obcecadas pelo casamento, pela beleza, pela espera, pelo silêncio.

A estória que costura as outras estórias com um fio vermelho é a tragédia de Matsumoto, que é manipulado pelos pais para casar-se com a filha de seu chefe, apesar de ser noivo de Sawako. Contudo, antes da cerimônia do casamento, abandona tudo ao saber que Sawako havia tentado o suicídio. Assim, de forma obsessiva, une-se a quem parece de fato amar: Sawako. Mas é tarde, ela encerra-se em si mesma e torna-se uma boneca, - mas permanece senhora de suas próprias vontades (e obsessões). Para controlar esses desejos e obsessões, Matsumoto a prende nele mesmo com uma corda. Essa corda vermelha simboliza o apego desmedido que caracteriza a obsessão do casal. Acorrentados um ao outro, vagam pelo Japão, pelas estações do ano, pelas outras estórias. O fio vermelho ainda costura o presente com flashbacks e as duas pontas do filme.
Na segunda estória, acompanhamos Hiro, um alto membro da Yakuza (máfia japonesa) que, ao sentir-se à beira da morte, tenta reencontrar seu antigo amor. Amor este abandonado por ele para sair em busca de riqueza e poder (paralelamente ao que Matsumoto estava prestes a fazer). Trinta anos depois de ter sido anbandonada num banco de praça, vemos a antiga namorada de Hiro, rotineira e obsessivamente, insistindo em esperar com o almoço no banco onde costumavam se encontrar.

A terceira estória envolve Haruna Yamaguchi, uma cantora que, após um acidente, passa a viver reclusa com vergonha de seu rosto deformado. Ela recebe a visita de um único fã, um rapaz cego. Trata-se de Nukui que feriu os próprios olhos para manter intacta sua obsessão pela cantora.

O filme possui uma belíssima fotografia, transitando pelos obsessivamente organizados e limpos parques, ruas, pontes e viadutos. A câmera costura um cenário aberto, livre, sem grandes obstáculos. Ao contrário de como são tratados os próprios personagens: presos uns aos outros quer seja por sentimentos de culpa, arrependimento, amor, obsessão, quer seja por uma corda, uma cadeira de rodas ou mesmo a ignorância.

O penúltimo filme de Takeshi Kitano, Dolls (2002), é diametralmente oposto aos outros. Apelando para as emoções do espectador, captura-o pela fotografia sublime. Em Zatoichi (2003) e Hana-Bi - Fogos de artifício (1997), por exemplo, a violência se dá de forma bruta, coreografada, visual. Em Dolls não temos a Yakuza, mas a estrutura da sociedade japonesa esmagando os personagens. Não há gritos nem diálogos, há silêncios e olhares que traduzem emoções. Não é um filme quebra-cabeça, sobre o qual é preciso falar para alcançar-lhe a lógica, mas um filme que - sem palavras - dialoga com as sensações.

De fato, Dolls é um filme de poucos diálogos. Parece ser a proposta do diretor-roteirista de fazer um filme para ser mais visto do que escutado. Mas o fato de ser silencioso não faz de Dolls um filme apático, mudo. Seus personagens gritam por meio de gestos mecanizados, controlados, repetitivos. Revelam suas angústias e obsessões por meio de seus atos extremados, suas expressões, seus olhares, seus sentidos ou silêncio. Talvez seja uma tentativa de “mostrar” a sociedade japonesa, cuja comunicação é mais pautada em gestos, símbolos e olhares, se comparada à ruidosa sociedade ocidental. Marc Ferro, historiador francês estudioso de cinema, alerta-nos da necessidade de perceber a imagem fílmica (com ou sem som) tal como um texto, e como tal, possuidora de um autor, de um contexto e de elementos de reflexão e crítica da sociedade na qual foi produzido ou reproduz. Assim, não há como assistir ao filme Dolls sem levar em conta a forte presença dos valores culturais japoneses de auto-afirmação, da superação racional, do machismo extremado, do excesso de controle social.

Esta sociedade é muito bem representada por uma de suas modalidades clássicas de teatro, conhecida como Bunraku. No teatro japonês Bunraku, mais de um homem controla, de forma sincronizada, bonecos bem elaborados, bem feitos, bem trajados, de maneira tal que parecem possuir vida própria. Não por acaso dois bonecos iniciam e encerram o filme. Seria uma provocação do diretor para fazer ver o que resta de humano em nossa sociedade, seja ela oriental ou ocidental? Qual o sentido da vida e de ser humano quando nos tornamos marionetes obsessivamente controladas por vaidades, ciúme, culpa, ou mesmo o amor?


Realizado por Takeshi Kitano
País: Japão
Ano: 2002
Duração: 113 min.
Com: Kanno Miko, Nishijima Hidetoshi, Mihashi Tatsuya, Matsubara Chieko, Fukada Kyoko, Tageshige Tsutomu, Omori Nao.


Por Marcelo Sabino e
Lou-Ann Kleppa

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Perdidos no tempo

Estou perdida no tempo. Passei uma semana fora e quando voltei, não me dei conta de que o tempo aqui tinha passado. Na minha percepção, eventos do passado e presente estavam alocados no futuro. No entanto, Lola já tinha corrido e fui aboiada para a sessão no SESC enquanto o filme era exibido. Isto significa que esta resenha é, diferente das outras, um post scriptum.

O primeiro filme exibido foi o curta de 15 minutos Morte. de José Roberto Torero. Laura Cardoso e Paulo José fazem o casal que se engaja nos preparativos para a própria morte. Passeiam pelo cemitério escolhendo lápides e flores, encomendam o caixão, ensaiam o funeral com os amigos, redigem o testamento e arrumam as malas. Quando tudo está pronto, esperam a Morte chegar. Mas a Morte não avisa quando vem visitar.

Semelhante desorientação no tempo é trabalhada no conto dOs sete enforcados, de Leonid Andreiev. Os sete personagens do escritor russo são condenados à forca. Ao contrário do casal do curta, os sete sabem exatamente quando morrerão, e o conto todo se desenrola sobre como eles ocupam seu tempo até a chegada da morte programada. Em ambos os casos, o modo como se aproveita o tempo antes do ponto final é tematizado. No curta, um período de tempo de vida é preenchido com preparativos para a morte. No conto, um período de tempo semelhante é preenchido com tentativas de contornar o momento derradeiro.

O outro filme da noite foi Aboio, de Marília Rocha. Trata-se de um documentário lindíssimo que leva a assinatura da documentarista mineira. Marília Rocha deixa a câmera filmando depois de obter a resposta do entrevistado, esperando por uma eventual continuidade. Com a curiosidade de uma criança, ela foca na garganta de onde sai o som, como se buscasse o momento em que é produzido. Por vezes, ouvimos sua voz, mais raramente seus comentários sobre a filmagem. Enfim, percebemos seu estilo de contrapor um clímax com uma cena contemplativa. Nessas cenas, em que pássaros rodeiam no céu, podemos ruminar as imagens vistas, as estórias narradas, o aboio e o olhar manso do boi.

Também aqui podemos observar um descompasso. Em algumas cenas, o som é editado de tal maneira que o vaqueiro que vemos contando causo não enuncia a voz que ouvimos do narrador. Em outro momento, o som é cortado enquanto vemos o vaqueiro tampando o ovido esquerdo e cantando com o diafragma. Os depoimentos de vaqueiros que não valorizam o traje de couro e que se renderam à carreta que transporta o gado pelo asfalto estão no início do documentário (e mais perto da atualidade), enquanto os depoimentos de vaqueiros que aboiavam desde meninos e que seguem a tradição estão no final da película (e mais presos no passado). Por fim, há imagens captadas com a câmera Super 8 costurando toda a obra.

Marília Rocha brinca com o tempo quando dá voz a diferentes gerações: velhos vaqueiros e Lirinha, vocalista do recém-extinto Cordel do Fogo Encantado. Ela fixa o tempo da tradicional prática do aboio quando faz o documentário que registra as estórias, os falares, os cantos, os rostos, as rugas, a transformação do tempo. Através das imagens de Super 8, cria um efeito de antigo que serve de guia para o futuro. Através do canto, nos guia pelos sertões da Bahia, Pernambuco e Minas.

Apesar de serem filmes datados, nos mostram como estamos perdidos em relação à linha do tempo: incapazes de prever o fim do nosso tempo na Terra, desconhecemos algumas tradições que nos transcendem e preenchemos o nosso tempo com a busca do progresso, desenvolvimento e dinamismo.

Morte.
Direção e roteiro: José Roberto Torero
Elenco: Laura Cardoso e Paulo José
Gênero: Ficção
Duração: 15 minutos
Ano: 2002.

Aboio
Direção: Marília Rocha
Gênero: Documentário
Duração: 73 minutos
Ano: 2005.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sobre as diferenças que o tempo pode fazer



São "apenas" vinte minutos... O "apenas" vem entre aspas porque a intenção é chamar a atenção para as infinitas coisas que podem acontecer dentro de certos intervalos de tempo que nossos relógios insistem em querer medir com a precisão positivista das sociedades modernas.

Durante vinte minutos Lola (Franka) tenta desesperadamente salvar seu namorado de uma grande enrascada. O namorado, Manni (Moritiz), trabalha para um poderoso gângster. Um descuido de Manni pode levá-lo à morte, caso Lola não chegue a tempo de intervir na tragédia...

Muita grana envolvida na trama. Talvez para despertar na plateia a força sedutora que o dinheiro exerce em nossas vidas. Talvez para mostrar que se trata de algo muito importante, cujo dinheiro é acionado pela narrativa do filme como uma metáfora de coisas indispensáveis à vida, o que me parece bem pior.

Manni encontra a solução na tentativa de assaltar um banco, enquanto Lola tenta ajuda junto ao pai que é muito rico. Um mero acidente que acontece pelo caminho muda todo o desenvolvimento da trama, trazendo consequências das mais diversas.

Um filme sobre um dos temas mais discutidos na modernidade, o tempo. De que estamos falando afinal? Como percebemos o tempo a nossa volta? O que é mais importante em nossas vidas? Como usamos o tempo que temos? Somos capazes de aumentar, diminuir ou desprezar o tempo?

Essas e outras questões emanam das cenas de Corra Lola, Corra. Despertando angústias, alegrias e pensamentos mil... Oxalá sirvam para direcionar melhor as nossas escolhas.


FICHA TÉCNICA:
Título Original: Lola rennt
Gênero: Ação
Alemanha, 1998

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O curioso Caso de Benjamin Button




O ser humano nasce e no decorrer de sua vida passa por várias etapas no seu desenvolvimento. A infância normalmente é o período em que a pessoa começa a descobrir as coisas da vida e dispõe de saúde e energia em abundância. No período da adolescência até a idade adulta é vivido o ápice da vida. A velhice que na maioria das vezes está acompanhada de doenças que acompanham a idade é também marcada pela idia de que a morte se aproxima. É através destas mudanças que observamos a influência do tempo em nossas vidas. O filme O Curioso Caso de Benjamin Button é baseado no conto de Scott Fitzgerald e apresenta a história de um homem que viveu toda sua vida fora dessa linearidade convencional. Benjamim nasce com a aparência de um velho de mais de 80 anos e consequentemente apresenta os males que normalmente acometem pessoas com idade avançada.
Benjamim é abandonado pelo pai e cresce em um asilo, local onde conhece Daisy, neta de uma das moradoras do asilo. Juntos eles vivem a infância e todo o processo que envolve esse período, porém Benjamim se desenvolve com a saúde debilitada e vive confinado nas dependências do asilo. Eles se apaixonam, mas caminham em direções opostas, pois ela envelhece e ele rejuvenesce. Suas vidas se cruzam em apenas uns momentos, quando eles possuem quase a mesma idade, e depois é impossível manter a relação porque ela está cada vez mais velha e ele mais jovem.
O filme faz uma reflexão interessante sobre o tempo. Benjamin vive um destino contrário ao tempo. É como se sua vida fosse vivida de “trás para frente”. Também observamos algumas semelhanças entre o período da infância e o da velhice (o bebê tem dificuldades para andar assim como uma pessoa com mais de 80 anos de idade), como se o tempo fosse cíclico, como se caminhássemos para certo ponto e depois regredíssemos. Outra reflexão presente no filme é a diferença entre a mente e o corpo físico do personagem em oposição ao tempo da vida de uma pessoa.
Um espetáculo à parte é a parte técnica da película que vai desde a maquiagem até os efeitos especiais. Sem dúvida a maquiagem é o que chama atenção, pois Brad Pitt e Cate Blanchett interpretam seus personagens em várias fases da vida. O filme é interessantíssimo, reflexivo e nos permite observar outra faceta do tempo.
Ficha técnica:
Diretor: David Fincher
Ano: 2009
Gênero: Drama
Duração: 159 min

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tempo de despertar



Ao despertarmos, uma série de processos psicossomáticos tomam conta de nosso cérebro. Esses processos nos orientam no tempo, mantendo uma noção temporal através dos nossos sentidos e dos nossos afazeres, de forma geral, das coisas simples que exercemos. O que vivemos é marcado por um tempo, o que fazemos e o que não fazemos também é marcado por um tempo. A passagem desse tempo é subjetiva de modo que cada um a sente de uma maneira diferente.

O filme Tempo de despertar é baseado em fatos reais: o neurocientista Oliver Sacks testemunhou um pequeno milagre quando foi exercer seu primeiro emprego, num hospital psiquiátrico. No filme, acompanhamos um tempo adormecido vivenciado por pessoas em estado catatônico. Esses pacientes não exercem nenhuma atividade a não ser comer e dormir. São pessoas paralisadas no tempo. Com essa visão, o doutor Malcolm Sayer interpretado por Robin Williams, passa a analisar e buscar respostas sobre essa “doença do sono”, pois ele suspeita que seus pacientes estejam com Parkinson exacerbado e que, se medicados corretamente, podem despertar.



É interessante notar no filme que mesmo após décadas de adormecimento, os pacientes sentiam em si a vontade de viver, de aproveitar tudo o que não haviam vivido antes. Eles voltam para uma realidade completamente diferente daquela vivenciada antes da encefalite letárgica. O tempo se torna valioso e cada segundo do “despertar” é aproveitado. O tratamento faz com que despertem também antigas habilidades como cantar, tocar piano, dançar etc. Esses momentos de diversão proporcionam a eles a esperança de viver, de explorarem novos lugares e de vivenciarem as coisas simples da vida.

A nossa percepção de tempo é algo completamente relativo: há quem queira viver intensamente, assim como há pessoas que vivem como se estivessem adormecidas no tempo. Ao "pararmos" o tempo, pausamos a nossa vida, entretanto a sociedade continua a exercer suas atividades. O tempo não para.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Penny Marshall
Elenco: Robert DeNiro, Robin Willians, Julie Kavner, Ruth Nelson, John Heard
Produção: Elliot Abbott, Elliot Abbott, Lawrence Lasker
Roteiro: Paul W. Shapiro, Steve Zaillian
Fotografia: Miroslav Ondrícek
Trilha Sonora: Randy Newman
Duração: 120 min.
Ano: 1990
País: EUA
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Não definida
Estúdio: Columbia Pictures Corporation


terça-feira, 2 de agosto de 2011

4° Mostra For Rainbow

Nos dias 19 e 20 de agosto (mudou!!) acontecerá, no SESC Esplanada, a 4° Mostra de Curtas For Rainbow. Trata-se de um festival simultâneo em mais de 100 cineclubes brasileiros para discutir a diversidade sexual. A proposta é que cada cineclube exiba os curtas e ofereça outra atividade cultural complementar. Em parceria com o CineSESC, vamos exibir os filmes, promover debates e apreciar uma performance de dança.

No dia 19 de agosto, às 20:00 haverá exibição de curtas e uma mesa-redonda para discutir o tema e os curtas. No dia 20 de agosto, também às 20:00, haverá apresentação de curtas (inéditos) e uma performance de dança.

Compareçam, divulguem!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Antes que o círculo se feche


Desde o Iluminismo, sociedades urbanas concebem o tempo como uma linha. O tempo presente é o momento que coloca os eventos passados atrás de si e os eventos futuros à sua frente. Sociedades rurais pensavam o tempo como um círculo que se fecha e se renova conforme as estações (do plantio, das chuvas, da colheita, das festas, da seca etc.).

No cinema, uma maneira bastante comum de subverter a linearidade do tempo é mostrando flashbacks. Os flashbacks são introduzidos na linha da narrativa, mas são marcados através de filtros de cores, por exemplo, ou uso de outros tipos de película. Essas marcas mostram ao espectador que a linha do tempo foi suspensa e que o que é narrado daquele modo visual diferente é uma fuga da cronologia.

O filme macedônio Antes da Chuva (1994) é, até onde sabemos, o primeiro a subverter a ordem cronológica da narrativa sem recorrer aos flashbacks, editando a ordem dos eventos em três estórias: Words, Faces, Pictures. As três estórias formam um círculo que não se fecha. Amnésia, de 2000, embaralha a ordem dos eventos para criar o efeito de confusão criada pela amnésia do protagonista. 21 gramas, de 2003, repete a fórmula de Amnésia.

Antes da Chuva é um filme muitíssimo premiado não só pela sua edição do tempo, mas pelas possibilidades de interpretação que oferece. Durante a guerra da Bósnia, um fotógrafo renomado, residente na Inglaterra, volta à sua terra natal depois de 16 anos e é confrontado com a violência das disputas locais. Mas não é assim que o filme começa.  

Words conta a estória de uma moça albanesa que vai se refugiar dos vizinhos cristãos no monastério e acaba sendo protegida pelo monge que fez voto de silêncio. Além de ele não dizer nenhuma palavra, os dois pertencem a línguas diferentes. Faces conta a estória da amante (inglesa) do fotógrafo que está grávida do marido. Ela estranha tanto o marido quanto o amante modificado pela violência registrada na guerra da Bósnia. Pictures conta a estória do fotógrafo que tenta se refugiar da guerra e da retidão britânica na Macedônia. Chegando lá, é confrontado com a velha disputa entre os albaneses (vizinhos) e ortodoxos (a família). A garota albanesa que seus familiares estão caçando refugia-se no monastério.

Durante o filme, a frase "O tempo nunca morre, o círculo nunca se completa", é repetida três vezes. A estória não se fecha, (antes progride em forma de espiral) mas o círculo de violência faz com que o filme permita essa reflexão sobre a circularidade.

Directed by Milčo Mančevski
Produced by Marc Baschet
Written by Milčo Mančevski
Starring Katrin Cartlidge
Rade Serbedzija
Music by Anastasia
Cinematography Darius Khondji
Editing by Nicolas Gaster
Distributed by Mikado Film
Release date(s) Italy 1 September 1994 (premiere at VFF)
United States 24 February 1995
United Kingdom 11 August 1995
Running time 113 minutes
Country Republic of Macedonia Macedonia
United Kingdom United Kingdom
Language Macedonian
English
Albanian

domingo, 17 de julho de 2011

De tempos em tempos

A definição de tempo, segundo os dicionários, é dada como a sucessão de anos, dias, horas, que envolve a noção de presente, passado e futuro. Ou ainda é definido como o momento ou ocasião apropriada para que uma coisa se realize. O que sabemos é que o tempo é uma questão fundamental para a nossa existência e que pode ser percebido através dos fenômenos da natureza (transição do dia para a noite, a mudança nas marés, observação dos astros, as fases da lua). A passagem do tempo pode ser percebida sem estar baseada necessariamente na percepção da realidade material, mas também pela maneira como a vida é compreendida pelo indivíduo. Tomando como ponto de partida algumas destas reflexões ,damos início a mais uma temática no cineclube: Tempo. Exibiremos no SESC dois documentários e dois curtas: Ãgtux, Jornada Kamayurá, A Janela Aberta e Entre Paredes.

O documentário Ãgtux (que significa “contar histórias” no idioma Maxakali) apresenta um pouco da cultura da etnia Maxakali que habita o vale do Mucuri em Minas Gerais. No documentário, são contadas algumas mudanças que ocorreram ao longo do tempo. Depois da guerra para obter a posse definitiva de suas terras, receberam terras devastadas pelos fazendeiros que desmataram a floresta para fazer pastos para o gado. Os índios continuam com o hábito de caçar, mas a caça mão é mais a mesma, agora as presas são bois e galinhas, eles também preservaram o hábito de pintar o corpo, mas não usam mais o genipapo e sim tintas industriais. A perspectiva de tempo que vemos neste filme é a resistência dos indígenas que sobreviveram até hoje. Este documentário não tem um narrador, nem um fio narrativo, de modo que a linha do tempo se dilui na contemplação de imagens.
 Jornada Kamayurá apresenta um dia na vida da etnia Kamayurá que vive no o Alto Xingu, próximo à Lagoa de Ipaivu. Quando o sol nasce, os homens e meninos saem em busca da caça enquanto as mulheres e meninas são responsáveis pela preparação do alimento. Neste documentário, a visão de tempo que temos é de um tempo biológico: os índios dormem no fim da tarde e vivem conforme o tempo da natureza.
No curta A Janela Aberta, observamos o entrelaçamento do tempo cronológico com o tempo psicológico através da história de um homem que está prestes a dormir e tenta se lembrar se fechou ou não a janela. Por causa desta simples dúvida, a mente turbulenta do personagem faz uma viagem em sua memória para tentar responder a questão e acaba revivendo e embaralhando vários dias. O passado e o presente se misturam de forma brilhante na história. A maneira de filmar (cortando, acelerando e parando o vídeo) sustenta a confusão temporal do personagem.
No curta metragem Entre Paredes é apresentada a história de um casal de vida simples. O marido é dominado pelo ciúme que logo se transforma em paranóia. Novamente temos o tempo psicológico dominando o personagem que é conduzido pelos pensamentos paranóicos que aceleram ou deixam as cenas mais lentas. Esse artifício é valorizado pela edição do filme que passa algumas partes do video mais rápidas que outras. A trilha sonora deste curta feita por Naná Vasconcelos é um espetáculo a parte, dando um efeito especial nas cenas de paranóia do personagem (o tempo da música acelera nos momentos de delírio do personagem, fazendo com que quem assiste ao curta seja conduzido pelas emoções alucinadas vividas pelos personagens, sentindo-se também sufocado, preso, entre paredes.)
Através dos filmes, temos algumas percepções de como o tempo pode ser percebido e entendido de várias maneiras, seja de forma cronológica, psicológica ou biológica. O que não se pode negar é que o tempo está passando e nenhum de nós pode deixar de acompanhá-lo.

Ficha técnica:
Título: Ãgtux
Duração: 22 min
Ano:2005
Direção: Tânia Anaya

Título:Jornada Kamayurá
Duração: 12 min
Ano: 1966
Direção: Heinz Forthmann

Título: A Janela Aberta
Duração: 10 min
Ano: 2002
Direção: Philippe Barcinsky

Título: Entre Paredes
Duração: 15 min
Ano: 2004
Direção: Eric Laurence

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Projeto aprovado

O nosso projeto de extensão universitária cineclube deLírio foi aprovado (yuhu!), concedendo inclusive duas bolsas (ufa!), conforme pedimos (yeah!!!). Isso significa que continuamos exibindo quatro filmes por temática na Unir Campus (toda sexta às 17:00) e no Sesc (toda penúltima terça-feira do mês às 20:00).

Até segunda ordem, as temáticas são:

  1. Meio Ambiente (encerra essa semana)
  2. Tempo
  3. Obsessão
  4. Morte
  5. Cinema & Literatura
  6. Solidão
  7. Liberdade
  8. Música - provavelmente outra dose de Chico
  9. Revolução
  10. Pós-Modernidade

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Carrocracia

O mapa da violência 2011, publicado em fevereiro, indica que as mortes em acidentes de trânsito aumentaram 32,4% entre 1998 e 2008. Outro estudo mostra que a maioria das vítimas fatais de acidentes de trânsito são homens entre 20 e 39 anos. Envolvidos são: álcool e alta velocidade. São tratados como acidentes, não como homicídios, imprudências ou imperícias. Em tese, não existem acidentes, já que o trânsito deveria seguir regras conhecidas por todos os agentes de trânsito (= todas as pessoas que fazem trânsito: pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas).
Por que as pessoas continuam comprando carros? O trânsito é um campo de batalha sangrento. Para cada morto no trânsito, há 50 feridos. E ferimentos ocasionados por latas em alta velocidade são incapacitantes. As armas são os motores, as armaduras são os vidros escuros que garantem o anonimato.
Por que as pessoas acham que precisam de um carro individual? Um carro é como se fosse a casa que a pessoa pode levar consigo. Porque há carros para todos os bolsos, eles representam o status social do dono do veículo. Dentro do carro, o motorista pode guardar suas coisas, ouvir sua música, se proteger da chuva ou do sol, comer, dormir e até transportar coisas e pessoas. O transporte acaba sendo o último critério, já que um carro individual é muito mais que isso: é sinal de sucesso profissional.

Com o sucesso, vem o prazer. O dono do automóvel diz que tem prazer de dirigir, apesar do stress no trânsito, da raiva que ele sente pelos outros agentes de trânsito, dos assaltos, da solidão entediante e dos radares castradores. O prazer de dirigir vem da sensação de poder sobre a máquina que ele controla e da sensação de velocidade que máquina atinge. Motoristas de táxi e ônibus, segundo Fé em Deus e pé na tábua, de Roberto DaMatta, não sentem prazer em dirigir. Dirigir é a sua profissão, e sua profissão envolve transportar pessoas.
O trânsito brasileiro não é feito de pessoas. O ciclista e o pedestre, por exemplo, não são vistos como pessoas, mas como obstáculos. No entanto, um obstáculo como uma caçamba cheia de entulho, por exemplo, é sempre contornado com boa margem. No mesmo livro, Roberto DaMatta defende a tese de que o trânsito brasileiro não é feito de iguais, submetidos ao mesmo Código de Trânsito Brasileiro, mas é hierarquizado. O motorista vê todos os outros agentes de trânsito ou como superiores (carros importados e grandes: ônibus) ou como inferiores (carros velhos, ciclistas, carroceiros, pedestres). O darwinismo selvagem da segregação natural ignora que o CTB é para todos e que o mais frágil tem preferência sobre o mais forte.

Além de ser uma das maiores causas de morte violenta no Brasil, o carro polui. Sua produção polui, seu uso polui, seu descarte polui. Não existe carro ecológico. Carros demandam asfalto. Asfalto impermeabiliza o solo. São Paulo sabe bem o que é isso: alagamentos. Carros custam caro para serem adquiridos e mantidos. Carros ocupam espaço público. Estacionamentos custam dinheiro, espaço e impermeabilizam o solo. Estacionar um carro na rua é equivalente a colocar um sofá numa vaga: os dois são bens privados ocupando um espaço que é de todos - e mais: um lugar de passagem.

Para fechar a temática Meio Ambiente, escolhemos três documentários feitos por paulistas sobre o trânsito (a maior queixa sobre a cidade), carros e bicicletas. O maior poluidor atual são as minas de carvão. O segundo maior são os carros. Não só a queima de combustível polui, mas a sua produção, a estrutura viária que ele demanda e o seu descarte. Por fim, o carro altera drasticamente as relações humanas.

Thiago Benicchio e Branca Nunes fizeram o documentário de 39 minutos Sociedade do Automóvel como trabalho de fim de curso em 2005. O filme bombou no meio alternativo e cicloativista - mesmo porque o Thiago é participante ativo da bicicletada de São Paulo há anos.

O Desafio Intermodal é uma gincana que acontece todo ano em São Paulo no Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro). O desafio é fazer os 10 km em menos tempo e poluindo menos - em diferentes modos de transporte. Nessa quarta edição, a bicicleta ganhou até do helicóptero.

Cidades para Pessoas foi feito por Natalia Garcia. O objetivo do projeto é mostrar como planejamento urbano é importante para uma boa qualidade de vida de cidadãos. Cidadão é diferente de consumidor. O consumidor é o indivíduo querendo consumir para subir na hierarquia, isolando-se dos outros. O cidadão é o sujeito atento para o seu ambiente, consciente de seus direitos e deveres.

Coincidência ou não, os três vídeos foram elaborados por jornalistas que fizeram da bicicleta o seu meio de transporte principal.

ESPN Brasil - Desafio Intermodal 2009
Renata Falzoni
duração: 4' 49''
Brasil, 2009

Cidades para pessoas
www.cidadesparapessoas.com.br
Natalia Garcia
duração: 6' 51''
Brasil, 2011

Sociedade do Automóvel (Automobile Society)
Branca Nunes e Thiago Benicchio

www.ta.org.br/sociedadedoautomovel
Brasil, 2005 - duração: 39'

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A corporação



Baseado no livro The corporation - the pathological pursuit of profit and power de Joel Bakan, A corporação é um documentário que nos apresenta um pouco do que acontece no mundo das grandes corporações. O filme mostra os vários crimes cometidos por essas organizações e como eles afetam nossas vidas diretamente. O único objetivo dessas empresas é o lucro, mesmo que para isso tenham que destruir o meio ambiente, explorar o trabalho infantil ou até provocar doenças mortais nos consumidores de seus produtos.

Perante a lei norte americana, as corporações são reconhecidas como ‘indivíduos’, ou seja, gozam de direitos como qualquer cidadão. Porém, quando se trata dos crimes cometidos por elas, não existe uma pessoa real para ser responsabilizada pelas atrocidades cometidas por estas empresas. Partindo da ideia de que corporações são indivíduos, o documentário tenta traçar um “perfil psicológico” desses indivíduos. Segundo alguns entrevistados no documentário, trata-se de um caso grave de psicopatia.

Psicopatia é uma doença mental grave, caracterizada pela ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, manipulação, egocentrismo, falta de remorso e culpa por atos cruéis. Todos esses sintomas descrevem com precisão a postura adotada pelas corporações diante da sociedade. Algumas destas empresas demonstram frieza ao explorarem a mão de obra barata de países pobres - inclusive de crianças, para obter maiores lucros. Outras empresas manipulam a população através de propagandas para que as pessoas acreditem que precisam consumir cada vez mais. Novamente o objetivo é o lucro. Outras ainda demonstram total falta de remorso ao utilizarem um produto químico (BST) nas vacas para aumentar a produção de leite que causa dores horríveis no animal e ainda é prejudicial à saúde humana.


O documentário conta com entrevistas e comentários de nomes de peso como Noam Chomsky, Milton Friedman, Mark Moody-Stuart (ex-dirigente mundial da Shell) e Vandana Shiva. A corporação se encaixa muito bem na temática meio ambiente, pois apresenta um dos grandes causadores de problemas ambientais no mundo: a exploração desmedida de recursos naturais e o modelo de produção desumanizado. O filme é um retrato da situação atual deste planeta que grita por mudanças antes que seja tarde demais.

Ficha técnica:
Título Original: The corporation
País de origem: Canadá
Diretor: Mark Achbar
Ano: 2003
Roteirista: Joel Bakan

sábado, 18 de junho de 2011

Amazônia adentro

Foto qualquer encontrada pelo grande oráculo da internet
Por alguma razão, esta temática Meio Ambiente está dominada pelo gênero documentário. Os filmes a serem exibidos na noite de terça-feira (dia 21, às 20:00) no SESC não fogem à regra: são documentários. Mais que isso, são documentários bastante peculiares.

Em Cidadão Jatobá, de Maria Luiza Aboim (1987) e com 14 minutos de duração, a câmera acompanha o feitio de uma canoa. Índios do Parque Nacional do Xingu escolhem o jatobá, recortam a casca da árvore (que continua em pé e provavelmente saberá recriar sua pele), moldam a casca com a ajuda da brasa e dos mais velhos e por fim iniciam a canoa na água. Esses índios falam a sua língua, se vestem de urucum e praticam seus costumes e rituais. Esses índios não desperdiçam recursos ou esforços na construção de sua canoa. A peculiaridade deste documentário, contudo, não está no processo filmado, mas na montagem do objeto. O narrador de Cidadão Jatobá é Marcos Terena, do Alto Xingu. Esse narrador não narra a elaboração da canoa, nem mesmo se refere aos índios empenhados nela. Enquanto índio tutelado pela FUNAI, Marcos Terena fala do seu processo kafkiano de emancipação.

No rio das Amazonas é de Ricardo Dias (1995) e tem 76 minutos de duração. Não aparecem amazonas, as guerreiras. Aparece o rio Amazonas. Ricardo Dias e Paulo Vanzolini (compositor e zoólogo)  fazem uma viagem de barco de 40 dias, saindo de Belém com destino a Manaus. A peculiaridade deste documentário é a horizontalidade: não existe hierarquia de vozes: as imagens, os ribeirinhos, o especialista (Vanzolini), o narrador em primeira pessoa (Ricardo Dias) e os recursos didáticos têm a mesma força.

No rio das Amazonas é um documentário bem equilibrado sobre a fauna, flora e ocupação humana nas margens do rio Amazonas. Não espanta que quando os tripulantes aportam numa cidade qualquer, acham tudo feio, sujo e barulhento. Somente os 'mateiros,' que vivem em comunidades relativamente pequenas (uma família, por exemplo), é que se integram à Natureza. Os urbanos vieram em massa (a primeira explosão demográfica se deu nos anos 80) e reproduziram o velho modelo da exploração predatória, do desperdício e da poluição.

Muito mais do que um estudo focado num assunto, estes dois documentários são fruto de experiências particulares. Walter Benjamin faz uma distinção interessante entre erfahren (= saber, experienciar) e erleben (= vivenciar, experienciar). Documentários como, por exemplo, Ônibus 174, manipulam saberes adquiridos pela via cognitiva (erfahren): há pesquisa, entrevista, investigação por trás deste tipo de documentário. Os dois documentários em questão aqui manipulam saberes adquiridos do contato: são testemunhos de uma vivência (erleben). E Leben é vida em alemão. Viva a Amazônia!