sexta-feira, 1 de julho de 2011

Carrocracia

O mapa da violência 2011, publicado em fevereiro, indica que as mortes em acidentes de trânsito aumentaram 32,4% entre 1998 e 2008. Outro estudo mostra que a maioria das vítimas fatais de acidentes de trânsito são homens entre 20 e 39 anos. Envolvidos são: álcool e alta velocidade. São tratados como acidentes, não como homicídios, imprudências ou imperícias. Em tese, não existem acidentes, já que o trânsito deveria seguir regras conhecidas por todos os agentes de trânsito (= todas as pessoas que fazem trânsito: pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas).
Por que as pessoas continuam comprando carros? O trânsito é um campo de batalha sangrento. Para cada morto no trânsito, há 50 feridos. E ferimentos ocasionados por latas em alta velocidade são incapacitantes. As armas são os motores, as armaduras são os vidros escuros que garantem o anonimato.
Por que as pessoas acham que precisam de um carro individual? Um carro é como se fosse a casa que a pessoa pode levar consigo. Porque há carros para todos os bolsos, eles representam o status social do dono do veículo. Dentro do carro, o motorista pode guardar suas coisas, ouvir sua música, se proteger da chuva ou do sol, comer, dormir e até transportar coisas e pessoas. O transporte acaba sendo o último critério, já que um carro individual é muito mais que isso: é sinal de sucesso profissional.

Com o sucesso, vem o prazer. O dono do automóvel diz que tem prazer de dirigir, apesar do stress no trânsito, da raiva que ele sente pelos outros agentes de trânsito, dos assaltos, da solidão entediante e dos radares castradores. O prazer de dirigir vem da sensação de poder sobre a máquina que ele controla e da sensação de velocidade que máquina atinge. Motoristas de táxi e ônibus, segundo Fé em Deus e pé na tábua, de Roberto DaMatta, não sentem prazer em dirigir. Dirigir é a sua profissão, e sua profissão envolve transportar pessoas.
O trânsito brasileiro não é feito de pessoas. O ciclista e o pedestre, por exemplo, não são vistos como pessoas, mas como obstáculos. No entanto, um obstáculo como uma caçamba cheia de entulho, por exemplo, é sempre contornado com boa margem. No mesmo livro, Roberto DaMatta defende a tese de que o trânsito brasileiro não é feito de iguais, submetidos ao mesmo Código de Trânsito Brasileiro, mas é hierarquizado. O motorista vê todos os outros agentes de trânsito ou como superiores (carros importados e grandes: ônibus) ou como inferiores (carros velhos, ciclistas, carroceiros, pedestres). O darwinismo selvagem da segregação natural ignora que o CTB é para todos e que o mais frágil tem preferência sobre o mais forte.

Além de ser uma das maiores causas de morte violenta no Brasil, o carro polui. Sua produção polui, seu uso polui, seu descarte polui. Não existe carro ecológico. Carros demandam asfalto. Asfalto impermeabiliza o solo. São Paulo sabe bem o que é isso: alagamentos. Carros custam caro para serem adquiridos e mantidos. Carros ocupam espaço público. Estacionamentos custam dinheiro, espaço e impermeabilizam o solo. Estacionar um carro na rua é equivalente a colocar um sofá numa vaga: os dois são bens privados ocupando um espaço que é de todos - e mais: um lugar de passagem.

Para fechar a temática Meio Ambiente, escolhemos três documentários feitos por paulistas sobre o trânsito (a maior queixa sobre a cidade), carros e bicicletas. O maior poluidor atual são as minas de carvão. O segundo maior são os carros. Não só a queima de combustível polui, mas a sua produção, a estrutura viária que ele demanda e o seu descarte. Por fim, o carro altera drasticamente as relações humanas.

Thiago Benicchio e Branca Nunes fizeram o documentário de 39 minutos Sociedade do Automóvel como trabalho de fim de curso em 2005. O filme bombou no meio alternativo e cicloativista - mesmo porque o Thiago é participante ativo da bicicletada de São Paulo há anos.

O Desafio Intermodal é uma gincana que acontece todo ano em São Paulo no Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro). O desafio é fazer os 10 km em menos tempo e poluindo menos - em diferentes modos de transporte. Nessa quarta edição, a bicicleta ganhou até do helicóptero.

Cidades para Pessoas foi feito por Natalia Garcia. O objetivo do projeto é mostrar como planejamento urbano é importante para uma boa qualidade de vida de cidadãos. Cidadão é diferente de consumidor. O consumidor é o indivíduo querendo consumir para subir na hierarquia, isolando-se dos outros. O cidadão é o sujeito atento para o seu ambiente, consciente de seus direitos e deveres.

Coincidência ou não, os três vídeos foram elaborados por jornalistas que fizeram da bicicleta o seu meio de transporte principal.

ESPN Brasil - Desafio Intermodal 2009
Renata Falzoni
duração: 4' 49''
Brasil, 2009

Cidades para pessoas
www.cidadesparapessoas.com.br
Natalia Garcia
duração: 6' 51''
Brasil, 2011

Sociedade do Automóvel (Automobile Society)
Branca Nunes e Thiago Benicchio

www.ta.org.br/sociedadedoautomovel
Brasil, 2005 - duração: 39'

2 comentários:

Rafael disse...

e aí rolou o filme, pq foi complicado sexta-feira....

iglou disse...

Rolaram os filmes, sim, apesar da greve.